Com incentivo financeiro do Google, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) estreia o Eleição Transparente, site que reúne e mapeia as ordens de remoção de conteúdo vindas de candidatos e partidos. Em conversa com a imprensa nesta quarta-feira, 27, o presidente da entidade, José Roberto de Toledo, explica que casos de censura judicial contra empresas de tecnologia e veículos de comunicação aumentam neste período eleitoral, quando os políticos tentam evitar que portais, redes sociais e blogs publiquem informações que consideram negativas.
A página do Eleição Transparente apresenta layout amigável e de percepção fácil, para que o usuário não tenha dificuldade para encontrar o conteúdo. A proposta é que a plataforma seja alimentada com informações das empresas censuradas, que terão login e senha para acessar a área e publicar os processos. O internauta pode ver, em tempo real, os infográficos fornecidos, com indicativos como, por exemplo, quais empresas têm mais ordens judiciais para retirada de conteúdo ou quais são os candidatos que mais censuram. Também é possível ver a partir de outros filtros como estado, partido e cargo do político.
Gazeta do Povo, Folha, Google e Ibope são as primeiras empresas a utilizar e alimentar o site. As informações fornecidas até o fechamento desta reportagem já permitem que o internauta saiba que o candidato a governador de Alagoas, Benedito de Lira (PP), é o que lidera com mais ações contra as empresas, sendo nove pedidos de exclusão de conteúdo. Além dos quatro grupos mencionados, a Abraji conta que outros mais de 10 apoiaram o projeto.
Sobre a formatação, equipe, desenvolvimento do site e o trabalho jornalístico com base em dados, Toledo conversou com a reportagem do Portal Comunique-se. Veja, abaixo, como foi o bate-papo, que aconteceu nesta manhã em São Paulo:
Quanto tempo demorou a efetivar o projeto?
Começamos em junho/julho deste ano por meio de conversa com o Google, que relatou a situação de ter que retirar o conteúdo do ar. Tivemos a ideia, formatamos e implementamos. O lançamento aconteceria um pouco antes, mas mesmo assim ainda estamos dentro do calendário. O projeto foi viabilizado pela ajuda financeira do Google (que colaborou com R$ 120 mil).
Como o site foi desenvolvido?
A ideia era que a página fosse um banco de dados, mas sempre que criamos algo assim corremos o risco de lançar uma plataforma que a pessoa não consegue usar. Pensamos em interface que fosse a mais “auto-explicável” possível, e que uma página levasse a outra. Quando acessado, o site inspira o jornalista a descobrir pautas que estão ocultas no meio dessa pilha de processos.
Quantas pessoas foram envolvidas no Eleição Transparente?
Somos em poucos. Da Abraji, além de mim, temos o Guilherme Alpendre (secretário-executivo) e o Laury Bueno, que foi chamado para participar desse projeto. Contamos com a ajuda de uma empresa desenvolvedora de site, para criar a página e fazer o armazenamento do conteúdo.
Você falou sobre a área de notícias que vai completar o Eleição Transparente. Como vai funcionar?
Ainda será lançada e ficará na parte inferior do site. A seção vai traduzir o que já tem nos infográficos. Vão servir de pauta todas as informações reunidas. Eventualmente, um processo ou outro pode ser mais detalhado nas reportagens, mas não é nada que o jornalista que se aventurar não possa ele mesmo descobrir. As notícias vão ficar por conta do Laury, que vai alimentar esse canal.
Como as empresas reagiram à ideia do projeto? Elas estão dispostas a alimentar a página?
A primeira recepção foi boa, pois todas sofrem do mesmo problema e é uma maneira para expor o que está acontecendo. Ainda estamos nos ajustando, mas nada que vai impedir a participação. Tivemos respostas positivas e vamos acompanhar até criar rotina dentro dessas companhias.
Em cidades menores, a censura pode acontecer de maneira mais agressiva. Vocês acreditam que veículos regionais serão parceiros?
Teoricamente, a censura é mais forte. Nós sabemos que os veículos com menor poder econômico estão sujeitos a mais pressão e a nossa ideia é justamente essa, de despersonalizar, de os veículos mostrarem que não estão sozinhos, que estão envolvidos dentro de um movimento maior. Talvez eles possam se sentir mais seguros para falar sobre essa censura, pois estão junto de outros. Mas isso é só especulação.
Como você acha que os candidatos vão reagir à novidade?
Não sei! Em política, não adianta fazer previsão, pois as coisas acontecem sempre de maneira oposta a que você imaginou.
O uso de banco de dados no jornalismo ainda é tímido no Brasil. Como a Abraji vê essa situação?
Está melhorando. Cada vez mais vemos redações criando times de jornalismo de dados, como fez Estadão, Zero Hora e O Globo. É uma tendência inexorável. À medida que os dados surgem, cresce a demanda de criar mecanismos para lidar com essas informações. Além disso, precisa saber criar e administrar seu próprio banco de dados. O conteúdo está aí e é público, mas se estiver disperso não se transforma em matérias e reportagens. São apenas dados soltos. Falta, ainda, hábito dos nossos profissionais. Não faz parte da nossa cultura e, pela formação em ciências humanas, temos aversão à matemática. Mas isso está sendo vencido pela necessidade.
A informação é do Comunique-se com texto de Nathália Carvalho.

