ARTIGO | Qual é o futuro do jornalismo?
01 de Fevereiro de 2021

ARTIGO | Qual é o futuro do jornalismo?

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por Fabiano Goldoni*

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Eu me considero uma pessoa de muita sorte por ter acompanhado o nascimento dessa era digital na universidade. Entrei na faculdade de comunicação social da UFRGS, a FABICO, em 1995 quando os computadores pessoais ainda não estavam todos conectados ao sistema de telecomunicações. A internet como a conhecemos era muito mais uma ideia do que uma realidade. Dois anos depois eu já estava publicando com meus amigos o nosso fanzine da faculdade no site tripod.com. Nos anos que se seguiram, vimos a era dos grandes portais, onde entrávamos pela home page das empresas de notícias para ficarmos bem informados. Assim, antes mesmo da virada do milênio, já se prenunciava o fim do jornalismo impresso. 

O capítulo seguinte foi o surgimento dos blogs e das redes sociais. Os produtores de conteúdo se multiplicaram em plataformas simples de publicação para criarem o seu próprio ambiente de informação. Numa via paralela a esse processo evolutivo, o jornalismo seguia o seu caminho se multiplicando em empresas independentes nascidas no ambiente digital. Buzzfeed e Mídia Ninja são alguns exemplos no cenário internacional e nacional. Entre 2008 e 2015 tivemos uma efervescência empreendedora incrível no cenário do jornalismo. A sensação é que a cada mês surgia uma nova iniciativa revolucionária. Jornalistas cansados de entregarem o seu talento quase de graça para grandes grupos de comunicação empreendiam cada vez mais no ambiente digital.

Do ponto de vista do modelo de negócio, o cenário não era muito otimista. Empresas tradicionais tentavam se agarrar, obviamente, aos modelos tradicionais de assinatura e venda de espaços publicitários nas edições impressas. Já os empreendedores nativos digitais desenvolveram formas mais eficientes de seguir produzindo jornalismo de qualidade exclusivamente na internet. Nesse contexto todo, o rádio e a TV aberta foram os que se saíram menos pior, pois nunca dependeram de assinaturas para sobreviver. Independente do meio, uma das formas de cobrir o déficit no caixa foram os conteúdos produzidos para anunciantes. Os publieditoriais passaram a fazer parte do ambiente das notícias com mais frequência. Conteúdos de marca foram misturados ao jornalismo, devidamente sinalizados em letras nem sempre muito destacadas como “Conteúdo publicitário”.

O ambiente era caótico, mas ainda assim, civilizado. Em 2016, as eleições americanas apresentaram um novo tipo de fenômeno na comunicação: as fake news. Empresas especializadas em produzir teorias da conspiração, conteúdos carregados de discursos de ódio e opinião disfarçadas de jornalismo tomaram conta no cenário da comunicação. As fake news não são propriamente uma grande novidade. Recomendo que assistam o documentário Operation Infektion produzido pelo The New York TImes, que conta detalhadamente a história das fake news. Para deixar tudo ainda mais caótico, estas empresas de “jornalismo ficcional” são mais eficientes ao utilizar aplicativos de chat como o WhatsApp e o Telegram para espalhar esses conteúdos contendo reportagens falsas.

Desenhei esse cenário todo para fazer um raio-x do cérebro do cidadão médio consumidor de conteúdo. Ou seja, eu e você. Não somos capazes de diferenciar uma notícia real de um publieditorial de uma fake news. A maioria de nós não consegue nunca. E todos nós não conseguimos, em algum momento do nosso fluxo de consumo de conteúdo, separar o joio do trigo em 100% das ocasiões. Se você procurar bem, vai encontrar diversos estudos como este da Universidade de Stanford abordando essa incapacidade das pessoas. 

 

O negócio do jornalismo.
As fake news estão sendo usadas por diversos portais e conglomerados de mídia nesse momento como um argumento para apoiar o jornalismo responsável através da assinatura. Ou seja, você tem que pagar para estar protegido das notícias falsas. É um argumento válido. Mas não resolve a dinâmica desse mercado. Esse modelo de assinatura tem sido bem-sucedido para um pequeno grupo de marcas internacionais e nacionais, como New York Times, The Guardian, Valor Econômico entre outras grandes e tradicionais marcas. O problema é que as pessoas não pagam para estarem bem informadas sobre os fatos do dia. Notícias são abundantes, gratuitas e poucas tem um caráter exclusivo, que convença o usuário a contratar mais uma assinatura na sua vida digital. A exceção são os conteúdos de blogueiros e colunistas de renome. Estudos internos destas mesmas grandes empresas, que conseguem manter um modelo de assinatura, indicam que a razão pela qual as pessoas pagam mensalmente para consumir conteúdo dos portais: acessar o conteúdo dos colunistas. As pessoas, portanto, pagam muito mais pela opinião do que pelo jornalismo do dia a dia. Muitos vão argumentar que existe o jornalismo de opinião. É verdade. Mas quero diferenciar aqui a informação factual que você encontra replicada infinitas vezes em ambientes gratuitos daquela informação interpretada e depurada que fica protegida atrás de paywalls. A minha conclusão é que esse modelo não atende à grande maioria que não têm acesso, ou não pode pagar, colunistas renomados. A dinâmica desse mercado tem uma inconsistência que tende a mudar a característica do produto ofertado. Para quem quiser entrar mais a fundo no assunto da dinâmica dos mercados, recomendo o livro Como Funcionam os Mercados do economista Alvin Roth. 

A íntegra deste artigo está no Linkedin de Fabiano Goldoni.

* Fabiano Goldoni é Co-founder, da Alright Adtech Company

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