?Vá a Cannes e ganhe um leão.?
05 de Agosto de 2011

?Vá a Cannes e ganhe um leão.?

Publicidade

1. O gerente da loja estava apreensivo.

“Será que acertei, quando contratei aquele rapaz?”
Havia uma razão para tanta preocupação: as vendas andavam devagar, ele tinha uma meta a cumprir e estava  longe dela, e a matriz não largava do pé dele.
 
“Deixa eu dar uma espiada.”
Escolheu uma posição privilegiada e ficou espiando. Justamente quando um cliente pedia algo.
Depois de ouvir atentamente o pedido, o vendedor se afasta e voltsa com uma vras de pesca sofisticada. O comprador aprova sorridente.

Publicidade

O vendedor diz mais alguma coisa, faz um sinal pedindo para o comprador esperar, se afasta e volta com um molinete de fibra de carbono e uma caixa de iscas.

Para o gerente, o desempenho do novo funcionário estava acima das expectativas dele. E já se preparava para deixar o posto de observação,  quando reparou: o vendedor oferecia, e o cliente comprava, uma vestimenta especial contra mosquitos; rede e alicate com balança para pesar os peixes; um colete salva-vidas inflável, com sinalizador noturno; uma barraca de camping para seis pessoas com ares para cozinha externa e proteção contra umidade; um barco enorme,m com motor de popa e carreta de transporte.

O cliente pagou, combinou a entrega, agradeceu e se despediu.
  
O gerente não cabia em si de tanta satisfação.

“Com esse rapaz vou superar a meta estabelecida pela matriz e ainda ganhar uma boa gratificação. Preciso cumprimentá-lo.”
Foi.
“Parabéns, rapaz. Você é um vendedor brilhante. O cliente entrou na loja para comprar uma vara de pescar e você vendeu tudo aquilo.”

“Nã foi bem assim, chefe. Ele entrou aqui para perguntar onde tem uma farmácia pra comprar absorvente para a esposa. Então eu disse: por que o senhor não aproveita esses cinco dias para pescar?

2. Concordo, esse é um causo muito antigo. Eu mesmo já o escrevi em algum lugar. No entanto, quando topei com ele em artigo assinado pelo Hamilton de Andrade Lemos e publicado no jornal A Cidade de 14.07.2011, de Ribeirão Preto, achei que ele se encaixa como uma luva no assunto que pretendo tratar aqui.

3. Ano passado, depois do Festival de Cannes, manifestei meu espanto diante da enorme quantidade de leões distribuídos. Mais de novecentos, se não me falha a memória.

Afirmei que isso banalizava o prêmio. E lamentei muito.

4. Andei levando umas bordoadas de gente que não gostou, mas não me importei.  Várias vezes, sempre que tive oportunidade, voltei ao assunto. Cheguei a escrever: “Vá a Cannes e ganhe um leão.”

5. Este ano, ano do Festival, o jornal O Estado de S. Paulo, que o representa no Brasil, reconheceu, em matéria de quase uma página, que ele tinha ficado confuso com as mudanças introduzidas.

6. E depois do Prêmio a imprensa especializada – que aliás não costuma ser crítica -  e alguns figurões que lá estiveram,  retornaram ao Brasil repetindo o que escrevi ano passado.

7. Pra mim, nenhuma surpresa. Qualquer profissional de bom senso percebe que o Festival de Cannes é como aquele vendedor da história: você passa inadvertidamente por lá, pergunta o que aquele monte de gente está fazendo ali e é convencido a levar uns leões pra casa.

Publicidade
WhatsApp
Junte-se a nós no WhatsApp para ficar por dentro das últimas novidades! Entre no grupo

Ao entrar neste grupo do WhatsApp, você concorda com os termos e política de privacidade aplicáveis.

    Newsletter