Após três dias da derrota que os brasileiros e estrangeiros jamais esquecerão, o jornal Notícias do Dia publica nesta sexta-feira, dia 11 de julho, um editorial especial sobre o assunto, em que sublinha atitudes irresponsáveis e condenáveis sobre a gestão dos órgãos do futebol brasileiro, que acabaram levando a Seleção Brasileira ao fracasso.
Confira abaixo, a capa de hoje do Notícias do Dia, em que destaca o editorial “A Morte do Futebol”, mostrada na íntegra aqui:
A morte do futebol
A vergonhosa derrota da seleção brasileira escancara uma dura realidade. É hora de mudar as estruturas arcaicas que comandam o futebol brasileiro. A começar pelos seus líderes e dirigentes. Assim como nas organizações, quando a empresa vai mal, seus executivos perdem o cargo e são substituídos. O mundo organizacional prioriza a competência. No futebol brasileiro, ao contrário, sobra paixão e falta gestão. O fiasco diante da Alemanha é reflexo de administrações corruptas e práticas antiéticas que transformaram o nosso futebol em motivo de piada mundial.
Procura-se, neste momento, culpados. O primeiro da lista é o técnico, por ter convocado mal, escalado de forma equivocada
e se omitido na hora de mudar. É fácil culpar Felipão, mas a origem do problema é outra. Está na cúpula da CBF, cujos nomes fortes não fazem o bem necessário ao esporte mais popular do país. Afinal, quem manda na Confederação Brasileira de Futebol? O atual presidente José Maria Marín tem em suas mãos a única entidade lucrativa do futebol brasileiro, mas nada faz para que esta riqueza seja distribuída aos clubes. A maioria deles vive no ostracismo por meses, vítimas da falta de planejamento e do calendário equivocado, aliado à subserviência de cartolas e do veneno de sanguessugas mercenários: empresários, agentes e dirigentes.
Difícil é acreditar que Marín não seja apenas uma marionete de Ricardo Teixeira, ex-mandatário da CBF, acusado de corrupção e lavagem de dinheiro, só para ficar nos principais delitos que o fizeram se esconder em Miami até que a poeira baixe. Marco Polo Del Nero vem aí. Desde 2003 no cargo de presidente da Federação Paulista de Futebol, ele assumirá a CBF em 2015 e dará continuidade às gestões anteriores. É a perpetuação no poder; mais do mesmo. A CBF não é o Brasil que deu certo, como disse Parreira. Ela é o Brasil do qual queremos nos livrar, o corrupto.
Alguma coisa deve ser feita para que as contas da entidade máxima do futebol se tornem públicas. Os agentes políticos devem, sim, se preocupar com isso. Ser uma instituição privada não pode ser confundido com impunidade. É o momento de exigir transparência, pois os 14 patrocinadores da CBF renderam em 2013 um faturamento de R$ 436 milhões e um lucro de R$ 55,56 milhões. Nada disso, ou muito pouco chega aos clubes falidos.
Algum valor pequeno “pinga” nas federações estaduais. Elas são as bases do poder de Teixeira, Marin e Cia. São coniventes com a mesma falta de respeito com futebol, torcedor e clubes. Como pode a Federação Catarinense de Futebol, por exemplo, ter o mesmo mandatário há 29 anos? E pior, eleito para mais quatro anos? A gestão está viciada, sem inovações e cheia de tentáculos nocivos que garantem, por meio de pressão, que tudo permaneça assim. Longe, muito longe do profissionalismo. Delfim de Pádua Peixoto Filho foi “premiado” com a vice-presidência para o Sul do Brasil na gestão Del Nero. Outra vez, mais do mesmo.
Exemplos de profissionalismo emanam de outros países e deveríamos nos basear na boa governança corporativa deles. A própria Alemanha, derrotada pela Itália na semifinal de 2006 dentro de casa, parou, repensou e planejou suas ações. O resultado é uma das ligas mais fortes da Europa, com regras e leis rígidas, capazes de tirar do cargo o presidente do Bayern de Munique, envolvido em corrupção. O jogo entre a seriedade germânica contra o jeitinho brasileiro terminou em 7 a 1 para os alemães.
Não para por aí. Os norte-americanos têm pouca tradição no futebol, mas descobriram o jeito de tornar o esporte sério e planejam chegar muito fortes nas próximas Copas. A Liga profissional do país registrou em sua última edição, média de público de 18 mil torcedores, contra 15 mil do Brasileirão 2013. Lá, mais gente foi aos jogos do que aqui.
Foi com este pensamento vencedor que astros como David Beckham, Thierry Henry e, mais recentemente, Kaká se tornaram os garotos-propaganda do campeonato do Tio Sam ao atuarem no país. No Brasil, quem seria hoje o nome mais atrativo para o mundo? É necessário pensar muito devido à falta de opções. Não temos um ídolo, não temos profissionalismo, não temos gestão. Somos movidos pela paixão.
A mesma paixão moveu grande parte da mídia esportiva nacional durante o Mundial e a tornou míope e desleixada, incapaz
de criticar, questionar e propor mudanças. Cumpriram o papel de torcedores e fugiram, assim como a CBF, de suas responsabilidades. Faltou coragem para dizer que não ganharíamos a Copa, pois outras seleções estavam mais preparadas. A Alemanha estava e mostrou isso de forma didática,categórica. A comoção nacional se transformou em choro. O foco dos atletas foi desviado. Deveriam estar concentrados em vencer, não em jogar pelo companheiro Neymar.
Diante deste quadro, cabe ao Grupo RIC se posicionar. Não esperamos que um deputado, um senador ou algum candidato proponha soluções milagrosas para mudar os destinos do futebol brasileiro. Como veículo de comunicação temos o dever e o direito de denunciar, de tornar público os desmandos e as contradições do modelo viciado que comanda o esporte no país do futebol. Somos a favor da transparência e da mudança na CBF e nas federações, pondo fim à corrupção e aos vícios históricos que se perpetuam há décadas. É hora de dar um basta e apontar os culpados pela morte do nosso esporte nacional.
A revolução no futebol brasileiro deve começar pelos clubes. Com coragem para questionar os erros, com força para se rebelar contra os desmandos de CBF e federações, mas, principalmente, impor o respeito que torcedor merece. Busquem apoio no poder público, revejam a legislação e a façam ser cumprida. O país do futebol precisa emplacar o maior gol de sua história, rever seus conceitos e mudar tudo, em todas as esferas. Cumprir o estatuto do torcedor, gerir de forma ética as categorias de base e o futebol profissional. Quem sabe na próxima poderemos exorcizar os 7 a 1 desta Copa e o orgulho na hora do hino possa ir muito além das quatro linhas.

