por Nícolas David*
Um admirável currículo no jornalismo, em que constam passagens por grandes redações do Brasil como O Jornal, publicação que era carro-chefe da cadeia de Diários e Emissoras Associadas de Assis Chateaubriand e Zero Hora, a versão gaúcha de Última Hora, de Samuel Wainer. Também deu uma passadinha em O Globo, da família Marinho. Mas Mário Pereira marcou época mesmo no Diário Catarinense, do Grupo RBS, da família Sirotsky e no jornal O Estado, do Empresário Aderbal Ramos da Silva.
Inquieto, Mário Pereira foi além da notícia e resolveu usar seu texto para publicar literatura. Seu primeiro livro, Jornalismo Fazendo a Cabeça, a primeira vista parece que vai falar apenas das histórias, seus feitos e trazer algumas opiniões bastante críticas a respeito da profissão. Só quem já tinha 27 anos de experiência poderia falar com tanta propriedade. A obra começa assim, mas vai além, revelando um excepcional crítico literário e um surpreendente crítico de cinema.
Ocupou por muitos anos um importante cargo de confiança no Diário Catarinense. Mário escreveu os editoriais do jornal, deixando a função há cerca de um ano. Não deixou a literatura de lado, porque para ele, escrever era um vício poderosíssimo. O vício de escritor levou-o a consagração entre os literatos. Mário Pereira passava, no final da vida, algumas tardes tomando café com seus confrades na Academia Catarinense de Letras. Ele ocupava a cadeira número oito dessa instituição, quando aconselhado a candidatar-se à vaga, relutou, mas aceitou a ideia, pois substituiria um amigo.
Foi para falar sobre a carreira que o professor Mário Pereira retornou a Unisul há dois anos. Retornar é o verbo ideal, e foi o mesmo utilizado por ele, na palestra com a qual presenteou os alunos de jornalismo da instituição. É que há não muito tempo atrás ele ministrava aulas da disciplina de Redação 1 e 2 dessa universidade. Foi organizador de três publicações que reuniam crônicas de seus alunos, foi ele quem orgulhosamente lembrou desses trabalhos.
Na abertura, falou sobre sua entrada no jornalismo, explicando que foi ao acaso, pois enquanto tomava um cafezinho no Rio Grande do Sul, encontrou um antigo amigo que acabara de assumir o comando da Zero Hora e que lhe fez um esquizofrênico pedido: venha trabalhar comigo. Quem conhece a capacidade intelectual de Mário Pereira sabe que não havia nenhuma esquizofrenia na atitude de Paulo Amorim, mas naquela época ele convidara para a redação um moço recém-formado em direito e com nenhuma experiência em jornalismo.
Todos estavam acomodados no Espaço Hipermídia quando, repentinamente, os olhos de Mário se distraíram para o chão. Foram dois cães que chamaram sua atenção. Ele era um apaixonado por cães e gatos. Um de seus felinos chama-se Ernesto, uma homenagem ao escritor norte-americano Ernest Hemingway. O gato, aliás, é cubano e seu vendedor empurrou-o a Mário dizendo que o bicho pertencia à uma ninhada dos gatos de Hemingway, quando o americano esteve em Cuba.
Ficamos, agora, sem a experiência de Mário Pereira. O jornalismo local, esperto que é, há algum tempo já havia deixado Mário meio de lado. Ou será que Mário mesmo fez essa opção? O fato é que muitas vezes confessou-me aversão ao modus operandi do qual aos poucos se afastou.
Ficamos, agora, com os ensinamentos de Mário Pereira. O jornalismo local, esperto que pode ser, daqui para frente, deve visitar Mário Pereira quando não souber como agir profissionalmente. Deve copiar seu texto, quando não souber como escrever com brilhantismo.

*Nícolas David é formando do curso de Jornalismo da Unisul. Integra a equipe de comunicação Social do Ministério Público de Santa Catarina. Atuou por dois anos do Diário Catarinense e na equipe de mídias sociais do Portal Caros Ouvintes. Atualmente, edita a revista eletrônica Estopim e é colaborador do portal AcontecendoAqui.

