Voltei. Depois de meses sem publicar patavina no Acontecendo Aqui, retorno com a intenção de retomar a frequência quinzenal de artigos que outrora obedeci. Saio agora de um longo processo de redação de tese, e pouco a pouco vou esticando o pescoço para ver o mundo lá fora. E a coisa tá feia.
Sentado aqui com meu uísque amigo, não precisei chegar nem à página quatro do El País para encontrar tema para este texto. O assunto tem a ver com crise espanhola e com publicidade, tudo entremeado com meus costumeiros devaneios on the rocks.
A capa do El País de hoje (11.07.12) tá assustadora. Anuncia o agravamento da crise e lista as novas medidas do governo espanhol, que vem acatando tim-tim por tim-tim as ordens da União Europeia. Saquem só o drama: os impostos que incidem sobre todos os produtos e serviços vão subir; o governo estuda a possibilidade de suspender o décimo terceiro deste ano; emendas diminuem o poder de políticos e aumentam o dos banqueiros; altos cargos do partido da situação são chamados a depor no Congresso para explicar o caos financeiro. E isso é só uma parte do que traz a primeira página do jornal mais lido do país. Como se não bastasse, a foto de capa mostra a multidão que protestou no dia anterior nas ruas de Madri. A manifestação seria inicialmente dos mineiros, vítimas de contínuos cortes governamentais que levarão – se nada mudar – nada mais, nada menos que à extinção da profissão. Acontece que aos mineiros se uniram muitos outros descontentes: estudantes, aposentados, professores, funcionários públicos… todos com a corda no pescoço.
Eu que não via o jornal há alguns dias confesso que a simples leitura da capa do El País bastou para me alarmar. Mas eis que viro a página e imediatamente sou transportado para outro mundo, muito mais belo, colorido e alto astral. O autor da façanha foi um anúncio de página dupla do novo perfume masculino da Carolina Herrera (não encontrei a página dupla para publicar aqui, então coloco uma versão página simples). É de dar inveja. O mauricinho saradão tá lá na maior, com cara de quem tá cagando e remando pros problemas econômicos e sociais que rondam pelaí. O mais provável é que até desconheça a situação. Afinal de contas não lhe sobra tempo para ler o jornal, ocupado que está em remar sua prancha e levar seu cãozinho são e salvo ao baile do Havaí. O colar do canino nos remete também à Ilha da Fantasia do Sr. Roarke, e é disso mesmo que se trata, de uma fantasia.
Sabemos que a publicidade sempre trabalhou muito com a criação de mundos perfeitos e inexistentes. As famílias felizes das propagandas de margarina já foram bastante criticadas. No entanto, ao que parece, os publicitários continuam usando esse estratagema, alheios a qualquer crítica e ao mundo que os cerca. Tá certo, agência e cliente querem e precisam faturar, e aí vale tudo. Bonzinho ninguém é mesmo. “Cada um com seus problemas” é a máxima que impera já há algum tempo e todos nós a praticamos, uns mais, outros menos. Pode até ser compreensível. Mas é insensível. O contraste é chocante.
Ler a capa do jornal e na sequência ver a página dupla do moreno perfumado despertou, ao menos em mim, sentimentos negativos em relação à marca. Tudo bem, eu não sou o público do perfume da Carolina Herrera, e isso pode mudar muita coisa. Mas, poxa, nos tempos que correm, com a Espanha caminhando para um buraco do qual demorará anos – talvez décadas – para sair, pega mal, mas mal mesmo, utilizar futilidade e pouco caso com a indignação alheia como formas de se comunicar.
Aprendemos desde cedo na faculdade que o publicitário deve estar permanentemente antenado e conectado à realidade ao seu redor. A Carolina Herrera e os profissionais implicados em sua comunicação mostram que não estão nem aí para essa realidade. Eu opino humildemente que a estratégia deles é furada. Pelo menos a de mídia, que situou esse anúncio nas páginas 2 e 3, sabendo que as capas do El País têm trazido invariavelmente más notícias nos últimos meses, de forte teor social e reivindicatório. A não ser que o público que queiram atingir seja precisamente os banqueiros, os políticos e seus filhos, que são os únicos que continuam a viver num mundo paralelo, sem crise, com restaurantes caros e férias no Caribe. Deve ser isso.


