- Estavas aflito, o jovem. O primeiro filho estava nasceria a qualquer momento e ele, como sempre, amarrado ao serviço. Sentia-se culpado se alguma coisa ruim acontecesse, porque entendia ser necessário ficar o tempo todo ao lado da esposa Mas não podia.
A empresa precisava muito dele, e tinha de corresponder. Além disso, havia uma vaga que ele desejava muito. Se promovido ganharia enorme salário, e um posto muito desejado. Por isso, acontecesse o que acontecesse, ele não faltava. Nem se atrasava.
Mas naquele momento…
O momento em que a esposa daria a luz, ele tinha de estar presente.
O médico tinha informado que o hospital havia recebido um equipamento maravilhoso, através do qual o marido podia dividir com a esposa as dores do parto, e precisava de um voluntário para experimentá-lo. E que tão logo terminasse o parto, eles poderiam ir pra casa. Sem nenhum problema. Ele topou na hora, não aguentaria ver a esposa sofrer sozinha. Menos ainda esperar alguns dias pra receber o filho.
Aí o telefone tocou.
Era do hospital, a esposa já estava lá, a hora do parto chegara.
O médico quis saber se ele estava disposto mesmo a dividir a dor com a esposa. Afinal, só mesmo as mulheres são capazes de aguentar aquilo.
“Claro que estou doutor. Faço qualquer coisa por ela e pelo meu filho.”
Instalado nele o equipamento, o médico julgou ser aconselhável ir devagar.
“Vou transferir 15% da dor. Se o senhor não aguentar, me avise.”
Ele agüentou. Para falar a verdade, não sentiu nada.
“Então, vou aumentar para 30%.”
Ele continuou sem sentir.
“Isso é fantástico. Vou dobrar a dor.”
Novamente ele nada sentiu. Como nada sentiu quando a contagem chegou aos 100%.
O médico estava estupefato.
Como havia sido prometido, foram direto pra casa, ele com o filho nos braços.
Lá, uma surpresa: na porta, chave do apartamento na mão, encontraram o vizinho, gemendo de dor, estirado no chão.
- Outro dia, em um apartamento na sacada do prédio ao lado da onde moro, foi encontrada uma mulher estirada no chão. Tinha sido vista assim, pela moradora de um apartamento de cima que, preocupada, acionou o alarme.
Foi encontrada em estado gravíssimo, mas espero que tenha sido socorrida a tempo.
- Desde sempre, uma coisa me incomoda: o pouco caso com que um vizinho com que trata do apartamento ao lado. Cruzam-se no corredor, às vezes abrem, ao mesmo tempo, a porta dos apartamentos onde vivem, e são incapazes de trocarem um cumprimento.
Fazem de conta que nunca se viram.
- Já escrevi um sem número se vezes, que residem aí, nesse desprezo mútuo, as raízes de violência que estamos assistindo agora.
Tudo começa dentro de casa, já dizia minha avó.
Quando uma pessoa trata a outra como se ela fosse nada, vale qualquer coisa: inclusive a violência, porque se tornam insensíveis.
Imagine se o acaso não ajudasse, e a vizinha se cima não visse a de baixo desmaiada.
Ou se, ao contrário, a vizinha se baixo, acometida do grave mal que a acolheu, tivesse a liberdade de pedir a ajuda da vizinha do lado.
Ou se o personagem da história que contei, tivesse sido avisado a tempo da traição que estava sofrendo.
As histórias seriam muito diferentes.
