De todas as experiências sensíveis que eu tive em tempos de #Quarentena, a que me deixou em convulsão foi esta aqui:
Informada de que o colégio da minha filha fecharia as portas de 17 de abril a 31 de maio, fui até o locker buscar um material escolar remanescente, que poderia ser útil nas aulas a distância. Mas apesar do céu azul, tudo ali foi sombrio. No estacionamento com vagas disputadas, prosperava o vazio. Então desci do carro, bem próxima da entrada, com calça comprida, gola alta, máscara no rosto, luvas nas mãos. E antes de abrir o portão, ganhei a companhia de quem não fala, mas se expressa.
Sozinho, o gatinho era inquiridor.
– Cadê as crianças?, perguntou.
– Cadê as risadas sem motivos?
– Os abraços sem aviso? Migrando feito bumerangue de um pro outro pescoço.
– E quando aumentam as tarefas, cadê a reclamação?
– A confissão pro melhor amigo que vai fazer uma “enrolação”?
– E o silêncio de quem se isola pela janela do celular?
– Cadê aquela desordem?
Testemunho de que tudo estava no seu lugar.
– As rodinhas das mochilas, que antes me assombravam. Cadê?
– E as lancheiras que levitam, vazias de tanto comer?
Desolada pela mudança, só lamento e me afasto.
– Desculpa, gatinho, é difícil responder.
Em direção ao colégio, subo a rampa tingida de Outono, coberta de folhas quebradiças, como eu também me sinto. Passo o hall onde tantas vezes busquei a filha menor que eu. Onde há tempo não circulava, dispensada, desde que ela cresceu. Entro solitária no elevador, e três sofás me abordam num êxtase ensurdecedor.
– Cadê os adolescentes, que vinham nos esquentar?
– As risadas com motivos, por que ganharam “um olhar”?
– A confissão com detalhes, que outro dia emoldurei?
– E a nota alta que compensa o “quase me matei”?
– Cadê aquela desordem?
Testemunho de que tudo estava no seu lugar.
– Cadê as razões que apressam os passos, imprimindo ao coração um suave descompasso? O elogio recebido. O trabalho a apresentar. O uniforme que falta. A graça que sobra.
– Cadê a vida em plena manobra, que transbordava neste lugar?
Com a voz embargada, me esforço e me vou.
– Sofás, simpáticos, sei que acolher é o que gostam de fazer. Mas vão ter que esperar.
Então sozinha, com o peito mais pesado do que a mochila lotada, pensei no que se passou.
Das folhas no pátio às flores no jardim, tudo estava ali. As salas de aula, a biblioteca, as mesas e cadeiras dispostas pelo hall. O colégio estava ali. A secretária também, desviando o sorriso pros olhos, pela máscara que cobria o rosto. Tinha o gatinho vigiando o portão e as placas de sinalização. E ainda assim faltava tudo. Faltava o futuro.
Faltava nossas crianças e os nossos teens. A quem devemos o cuidado de só sair se obrigados. A paciência de ficar em casa, evitando o contágio e a transmissão. A maturidade pra compreender que não posso controlar o mundo, nem os outros, e que quando o mundo e os outros são diferentes do que eu presumi, não é o meu Caixa que vai me salvar. São os meus valores. E a minha resposta, de quem tantas vezes seguiu e perseguiu os desígnios da fé, é que Confinamento, Confusão e Conflito a gente cura com Confiança.
Eu me obrigo a confiar, a ter bons pensamentos, a filtrar meus sentimentos, a mostrar pra minha filha que com colaboração e remanejamento, tudo vai tomar o seu lugar. Mas preciso mandar pro mundo o que o mundo precisa: boas vibrações. Emanar a certeza de que se cuidarmos das crianças oxigenando a esperança (como o Wall-E cuidou da plantinha no espaço) quando a Pandemia passar, o mundo terá se tornado um lugar ainda mais fértil pra vida desabrochar.
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