A campanha de publicidade da TIM nos sugere uma viagem pelo trem azul, e a música nos transporta para um passado não muito distante, quando era sucesso. Nada mais adequado. É preciso reconhecer que a empresa de telefonia móvel presta um relevante serviço à sociedade, revivendo certos hábitos de um Brasil ainda ingênuo e sentimental, quando as famílias se sentavam às calçadas para a conversa descompromissada do cair da tarde, quando as pessoas, principalmente as moçoilas, assomavam às janelas “pra ver a banda passar”, ou simplesmente para observar os vizinhos que iam e vinham. Pois a TIM, sem cobrar nada extra, nos leva de volta àqueles tempos românticos, já que para conseguir comunicação é preciso ficar pendurado numa janela, o que, convenhamos, é salutar: é uma oportunidade de ver quem passa, dar adeusinho para a senhora do 204, fazer uma pausa no trabalho que está atrasado…
Mas não é só isso não. Com a TIM voltamos às sensações da adolescência, quando nos afligia a incerteza de que um determinado telefonema viria mesmo ou se já teria vindo quando não estávamos. Então foi inventada a secretária eletrônica, que registrava a mensagem de quem chamava. A TIM nos remete àquela mesma sensação: será que ligaram? Mas ela provê uma secretária eletrônica, chamada de caixa postal, que nos avisa às duas da madrugada que recebemos uma chamada às cinco da tarde. E, para dar destaque a esse serviço excepcional, uma voz (seria uma jovem senhora?), numa grande correria verborrágica, nos avisa em quase todas as chamadas que fazemos, que “sua ligação está sendo encaminhada para a caixa postal e estará sujeita a cobrança…”. Claro que você não deixa mensagem nenhuma, primeiro porque não quer pagar por ela e depois porque sabe que se ligar em seguida, muito provavelmente do outro lado alguém vai atender. Sem contar as pegadinhas bem humoradas, que afirmam, com a maior cara de pau, que somos incompetentes para digitar um número de telefone e avisam que “a TIM informa que este número não existe”.
Isso me faz lembrar de que, quando trabalhava para a Unilever, fiz estágio em Londres, onde me encontrei com um amigo que morava ali há alguns anos e que me contou a seguinte história: um jovem brasileiro estava vivendo na cidade, num programa qualquer de intercâmbio, e usufruía uma bolsa de estudos. Numa segunda feira, uma inglezinha, colega sua, se queixou que ele não havia comparecido ao seu aniversário no sábado e nem avisado que não iria. O rapaz, constrangido, ainda vivendo os costumes e hábitos brasileiros, inventou uma mentirinha inocente, alegando que tinha tido um imprevisto, mas que avisara sim, enviando um telegrama. Dois dias depois recebeu a visita de um agente da lei, intimando-o para uma audiência numa corte local. É que a garota, indignada por não ter recebido o telegrama, foi até os correios reclamar e então se revelou a farsa. Acontece que a simples mentirinha tinha ferido a honra de uma das mais tradicionais e respeitadas instituições britânicas, o serviço postal. Resultado, o jovem perdeu sua bolsa e foi convidado a se retirar do país. Aqui não teria sido necessária toda essa agitação, nem tomadas medidas drásticas – bastaria que o inadimplente social dissesse: eu te liguei varias vezes pelo celular, você não atendeu, então deixei um recado na caixa postal. Que nunca chegou nem ninguém se importou com isso.
Mas é preciso que se faça justiça com a TIM – não é somente ela que nos presta esse serviço com gostinho de passado, as concorrentes estão no mesmo passo, cada uma se esmerando mais que a outra.
O que nos consola é ficar pensando no futuro quando, quem sabe, teremos um serviço de telefonia móvel aceitável.
