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Somos alienados?
05 de Março de 2014

Somos alienados?

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Nos anos 70, durante a ditadura militar, era comum que chamassem a publicidade de alienada e, por consequência, de alienados os publicitários, por “não estarem sintonizados com as ânsias libertárias da sociedade brasileira”. Embora não fossem poucos os publicitários que colaboravam com movimentos clandestinos, e alguns tivessem mesmo amargado o DOI CODI, famigerado órgão de investigação, éramos obrigados a engolir aquela pecha.
É que a propaganda tem por princípio intrínseco estimular consumo, ajudando a movimentar a economia. E isso se faz geralmente mostrando situações e pessoas em atitude positiva, alegre, desfrutando a vida. Por isso, pode mesmo haver uma falta de sintonia entre a realidade e a, digamos assim, ficção construída pela publicidade.

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Fevereiro de 2014, quinta feira, 9 horas da noite. Tiros pipocando, no mínimo vinte, uma mulher correndo pela rua deserta segurando um cachorrinho, helicóptero sobrevoando… Evitando as janelas, para não correr o risco de uma bala perdida, ficamos sem saber o que acontecia. No dia seguinte, procurei no jornal: nada. No concorrente, também nada. Não era importante para eles. Mas devia ser, porque não moro perto da Rocinha, ou do complexo do Alemão, moro numa pacata rua de Florianópolis.

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Acontece que estamos banalizando a violência e todo tipo de agressão que recebemos todos os dias, sejam físicas ou morais. Querem uns poucos exemplos? Vamos lá.
• Bandidos mascarados, sem bandeiras ou motivos explícitos, vandalizam, quebram assustam, matam pelas ruas das cidades, sem que ninguém seja punido até agora.
• Ônibus são queimados todos os dias, piorando o já péssimo serviço de transporte público.
• Estamos voltando à prática do linchamento.
• Movimentos anacrônicos como o MST recebem financiamento oficial, promovem baderna e são recebidos no dia seguinte em audiência pela presidente.
• Quatro ou cinco ministros entram em conluio e aliviam as penas dos condenados no mensalão, para grande desilusão de milhões de brasileiros que confiaram no STF.
• Se um de nós, pobre mortal, precisa de míseros reais para quitar dívidas e vai a um banco solicitar crédito pessoal, se conseguir, vai ter que pagar juros de no mínimo 7% ao mês!
• Já os mensaleiros, condenados a devolver uma pequena parte do que roubaram, sabendo-se que a lei prevê que pena pecuniária é proporcional ao patrimônio do condenado, esses mensaleiros fazem vaquinha no facebook e levantam mais de um milhão de reais! Ô gente piedosa esses faces, sô. Em outras palavras, não vão devolver nada.
• Um bando de loucos ficou preso no ano passado na Bolívia, sim, na Bolívia, acusados de participar da morte de um torcedor. O Governo do Brasil, cônscio de seus deveres, se empenhou para que? Para saber a verdade? Não, para libertá-los. Uma suspeitíssima confissão de um “de menor”, inimputável, fez com que saíssem todos tranquilamente.
• Confiantes na impunidade, depois da volta triunfante ao Brasil sob os holofotes das equipes de TV, atacam de novo, em vários cenários, brigando, batendo, quebrando. Invadem o clube com intenção de quebrar as pernas de um jogador, mas não conseguem. Então, o que faz o clube? Livra-se do jogador…
• Os muitos milhões gastos na Copa eleitoreira não estão sendo aplicados na solução dos problemas de acesso e mobilidade nas cidades sedes. Mais uma enganação.
• No Torneio Aberto do Rio de tênis, o jogo entre David Ferrer, terceiro do mundo e Tomás Bellucci, o primeiro do Brasil, foi interrompido por um apagão, o que obrigou o diminuto público presente e os que assistiam pelo Sportv a esperar uma hora e meia pelo reinício. Em São Paulo, no Aberto do Brasil, duas horas de apagão. Aquele mesmo apagão que a presidente, ministro e outros que tais dizem que apresenta risco zero.
Vivemos um momento ruim na economia, Petrobrás, portos, aeroportos, segurança, educação, saúde, trânsito, futebol, tudo… O tecido social está se esgarçando. Portanto, não se espantem se disserem de novo que a publicidade é alienada.
Publicidade que, aliás, tem sido não só manipulada, como muitas vezes maltratada. Quer ver?
• Campanha “Mais médicos” do governo Federal: por que o CONAR não intervém se, além de configurar propaganda eleitoral, é enganosa? Os comerciais são rodados em sets hollywoodianos, onde só falta entrar de repente o Dr. House com sua bengala. Igualzinho ao que se encontra nos hospitais, postos de saúde e clínicas Brasil afora.
• Telefonia móvel: Claro “é outra coisa”, e eu preferia que fosse a mesma coisa mas funcionasse. Vivo diz que “pega bem”, mas não pega. Tim “tem tudo que você precisa, sem conta e sem surpresa” – surpresa seria se funcionasse.
• Aqueles bancos que cobram quase 10% de juros ao mês, dizem que você tem que se divertir e deixar que eles trabalhem por você, que só é perfeito para eles se for perfeito para você… Dá para acreditar? Dá, desde que se mantenha uma conta de alguns milhões.
• Na semana da denúncia de fraude na transferência de Neymar, ele aparece em anúncio de cueca, item fortemente relacionado a desvio de dólares.
• Título de anúncio de página dupla em Veja: “Requeijão… bom como dever ser”. Não seria “deve ser”?
• Meio complicado, talvez eu é que não tenha entendido, mas anúncio de Havaianas diz “antes de apressar sua namorada na loja de Havaianas, lembre-se: se ela escolhesse tudo com tanta dedicação, provavelmente você ainda estaria solteiro”. Mas ele está apressando a namorada, portanto continua solteiro, ou não?
• Um curso de inglês, querendo convencer que é mais rápido, mais eficaz que os outros, pespega num outdoor: “Você fluente em ¼ do tempo”. Beleza, mas o que fazer nos outros ¾ do tempo? Falar em que língua?
• Para não cansar, só mais um exemplo de equívoco completo: a milionária campanha ridicularizada, desacreditada de Roberto Carlos para Friboi.
Neste momento, em que os hábitos de audiência de televisão começam a ser pesquisados em mais profundidade, por que não fazer uma pesquisa sobre a credibilidade da propaganda? Fica aqui a sugestão. Alguém tem coragem?

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