por André J. Gomes*
Um pelicano. Abelardo era um pelicano. Tinha um bico imenso, bojudo, com um papo enorme em forma de bolsa. Ali, em sua bocarra, levava todo mundo no bico. Peixes, garrafas de vinho, roupas, acessórios. Até os funcionários e clientes de sua agência de propaganda.
Abelardo conhecia como ninguém os anuários internacionais de publicidade. E incentivava suas equipes de criação a copiar tudo de lá. Depois, ele mesmo apresentava os trabalhos aos clientes como se fossem de sua autoria. Abelardo levava todo mundo no bico.
Até que um dia ele levou embora de carona a Juzinha, uma revisora avoada que vivia botando as asinhas de fora, e convidou a moça para um drinque no bar do Pica-Pau. Beliscaram uns petiscos, provaram uns frutos do mar, discutiram a novela das nove. Naquela noite a conversa foi e voltou, as horas voaram e Juzinha também caiu no papo do patrão. Abelardo abocanhara mais uma isca.
Só que, dessa vez, a presa parou-lhe na garganta. A revisora alçou vôo sem dar explicação e sumiu. Um ano depois, reapareceu na agência com cinco pelicaninhos. Abelardo descobriu que era papai.
Surpreso com aquele papo inesperado, o pelicano engasgou e pensou até em bater asas dali. Mas não havia o que fazer. Fugir para onde? As coisas tinham se complicado. Cinco bicos a mais para alimentar exigiriam trabalho quintuplicado e mordomias reduzidas. O que fazer senão deixar de papo e voar atrás de novos clientes?
Abelardo pensou, pensou e chegou a uma conclusão. Esperou os pelicaninhos crescerem e empregou o quinteto inteiro em sua empresa como estagiários não-remunerados! Em pouco tempo, os espertos bicudos já sabiam fazer de tudo. E o empresário espertalhão demitiu quase a agência inteira. Ao lado de sua mulher Juzinha e de suas cinco crias, multiplicou sua fortuna.
A capacidade do pelicano de levar todo mundo no bico havia sido reforçada por cinco novos papudos cheios de talento. A vida não podia estar melhor para aquela família de rapina. Não havia quem não fosse capturado pelo enorme bico de Abelardo e sua prole penada. Mas um dia essa história mudou.
Abelardo e sua família plagiavam tranquilos uma campanha para as redes sociais quando um enorme navio estrangeiro atracou no porto perto de sua agência. Carregado de dinheiro, especiarias, contatos internacionais, equipamentos ultramodernos e atendimentos estivadores, a nau multinacional derramou toneladas de óleo na praia dos pelicanos e ensebou os negócios deles.
Logo, os gringos avançaram nos clientes de Abelardo, ofereceram descontos, vantagens, equipes exclusivas e tantas outras iscas suculentas. Um arsenal de argumentos muito mais poderoso que qualquer conversa mole.
O cargueiro estrangeiro não teve pena e, um a um, levou embora toda a clientela do pelicano. Sem outra saída e com o papo afetado por conta do óleo ingerido, Abelardo e os seus se mudaram para uma praia bem longe da ameaça internacional: um pesqueiro de uma cidade do interior.
Ali, hoje passam os dias levando iscas de peixe no bico e contando histórias de pescador para alcoólatras, pilotos de trator e donos de padaria.
André J. Gomes é jornalista especializado em Gestão Estratégica da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Com 18 anos de experiência em agências de comunicação, produziu conteúdo editorial e publicitário para inúmeros clientes em diversos segmentos. É professor da ESAMC Sorocaba, redator da agência NucleoTCM e colunista da Revista Bula, no Portal R7.
