Essa era uma das citações clássicas da minha avó, sempre que ocorria alguma coisa inesperada, que alterava radicalmente os planos de alguém. Nem por isso a minha avó deixava de ter suas vontades com relação ao futuro. Mas priorizava sempre o presente. Esmerava-se em experimentar um presente pleno, através da entrega às suas melhores qualidades no exercício da coexistência. E, assim, construía o futuro possível, dentro da lógica cristalina da simplicidade.
A avó dos meus enteados, uma senhora japonesa que viveu as agruras da guerra, sempre que questionada sobre a busca do êxito futuro, responde: “vai fazendo direitinho que dá certo”. Seus netos têm feito direitinho e isso tem dado muito certo para eles.
Na vida corporativa, no entanto, percebo uma dicotomia esquisita entre presente e futuro. Como se “fazer direitinho” agora fosse uma coisa completamente diferente de planejar o futuro.
É interessante observar como o futuro vem se tornando cada vez mais protagonista da vida presente. Adquire uma majestade tamanha que acaba se convertendo na nossa principal ocupação. Para quê? Apenas para atender a uma enorme ansiedade por buscar precisão absoluta no absolutamente abstrato.
Sacrifica-se tempo precioso, em discussões intermináveis focadas em elaborar equações confortáveis para todos, desenhos acabados do porvir, baseados apenas em suposições e estimativas. Especialistas em planejamento, dotados de formidável habilidade retórica, transformam-se em mitos, valorizadíssimos, por sua capacidade de fornecer subsídios teóricos, capazes de inocular segurança em nossas mentes, com relação ao imaginado.
Planos A, planos B, planos C são pré-traçados sobre cenários ficcionais, como se, naturalmente, não fôssemos capazes de agir de alguma forma, configure-se amanhã o previsível ou o inusitado.
Ilustrativo o fato das Organizações Globo, por exemplo, só para citar um modelo impecável de gestão, ter investidos 250 milhões de reais na Geo Eventos, em 2010, para, surpreendentemente, encerrar as suas atividades, em 2013. É impossível supor que tamanho investimento não tenha sido planejado por gente competente. Quantas variáveis terão sido consideradas na construção dessa gigantesca projeção? Vamos convir que, em tese, ninguém assine um cheque de 250 milhões sem esgotar as possibilidades de fracasso.
Pego esse caso extremo, propositalmente, na tentativa de aplacar a demasiada presunção de importância que andamos atribuindo àquilo que planejamos para o futuro. Que tal usar esse tempo para simplesmente entregar-se ao presente e continuar fazendo direitinho?
