1. Uma mãe e um bebê camelo estavam por ali, à toa, quando o bebê camelo perguntou: – Por que os camelos têm corcovas?
– Bem, meu filhinho, nós somos animais do deserto, precisamos das corcovas para reservar água e por isso mesmo somos conhecidos por sobreviver sem água.
– Certo, e por que nossas pernas são longas e nossas patas arredondadas?
– Filho, certamente elas são assim para permitir caminhar no deserto. Sabe, com essas pernas longas eu mantenho meu corpo mais longe do chão do deserto que é mais quente que a temperatura do ar e assim fico mais longe do calor.
Quanto às patas arredondadas eu posso me movimentar melhor devido à consistência da areia! – disse a mãe.
– Certo! Então, por que nossos cílios são tão longos? De vez em quando eles atrapalham minha visão.
– Meu filho! Esses cílios longos e grossos são como uma capa protetora para os olhos. Eles ajudam na proteção dos seus olhos quando atingidos pela areia e pelo vento do deserto! – respondeu a mãe com orgulho.
– Tá. Então a corcova é para armazenar água enquanto cruzamos o deserto, as pernas para caminhar através do deserto e os cílios são para proteger meus olhos do deserto. Então o que é que estamos fazendo aqui no Zoológico???
Moral da história: Habilidade, conhecimento, capacidade e experiências, só são úteis se você estiver no lugar certo!
2. Quando escrevo estas mal traçadas o Festival de Cannes nem começou mas já dá para prever as notícias que chegarão de lá:
“Desempenho brilhante do Brasil”
“O país conquistou grande número de leões”
“Estamos entre os mais criativos do mundo”
3. Na verdade, deveriam escrever:
“Estamos definitivamente enquadrados”
“Estamos à altura dos principais países”
“Conseguiram esterilizar a comunicação brasileira”
4. O que, alas, já se tem escrito há muito tempo.
Em 1975, em fascículo editado pelo Clube de Criação de S. Paulo, então presidido pelo Zaragoza, William Bernbach advertia:
“Estamos tão ocupados reunindo estatísticas, que nos esquecemos da nossa capacidade de criar. Se Churchil tivesse dado ouvidos à opinião pública mundial e se tivesse se orientado, sem nenhuma emoção, pelas estatísticas, teria chegado à conclusão lógica de que não havia esperanças e a Inglaterra, e talvez o mundo livre não estariam aqui para contar a história…. Pode ser que estejamos em detalhes demais. Pode ser que nossas ideias em propaganda estejam caindo por terra, baleadas por essa onipotente máquina da eficiência norte-americana.”
5. Dá olha olhada pra trás e veja o que aconteceu. Repare que nas últimas décadas as multinacionais de comunicação, apoiada pelas multinacionais das outras áreas invadiram o país e tomaram conta das agências brasileiras.
Rapidamente os criativos foram arrancados de suas gaiolas para atuar em um mesão. Ali passaram a discutir estatísticas, planejamento, mídia. E o tempo para falar de criatividade minguou.
Fora da gaiola – que por sinal não tinha porta – perderam a espontaneidade. Uma coisa era conversar a dois, a outra era botar pra fora a ideia que irresponsavelmente aparecia.
“Na nossa profissão, a nossa raiz, o que nos mantém vivos, o que faz com que possamos crescer continua sendo a criação, a ideia. Ela que alimenta todo o setor da comunicação,” disse Roberto Duailibi em palestra sob o título A Raiz e as Folhas, que pronunciou na abertura do 1º. Encontro Nacional de Criação, no Rio de Janeiro.
E ele tem razão desde aquela época. Como diz a girafinha das história:
“Então a corcova é para armazenar água enquanto cruzamos o deserto, as pernas para caminhar através do deserto e os cílios são para proteger meus olhos do deserto. Então o que é que estamos fazendo aqui no Zoológico???”
Ou, trocando em miúdos, da que adianta ter tantos recursos se não conseguimos usar o principal?
Dentro da gaiola, os criativos se expunham. Quando saiam dela, voavam livremente, eram felizes. Sem ela, se inibem, perdem a espontaneidade.
6. “E daí”, perguntarão os cínicos, “ se estamos sendo consagrados lá fora?”
7. Daí que quem compra está aqui dentro, no nosso mercado, incomodados com o nível dos comerciais que criamos, cada vez menos interessantes. Daí que, em consequência, a comunicação de massa perde rapidamente a força, carregando os criativos com ela.
