A construção de uma marca (branding) é, com certeza, uma das tarefas mais subjetivas do universo empresarial, pois se trata de percepções sobre como as pessoas enxergam uma empresa. Apesar de o mundo financeiro ter criado indicadores e medidas para monetizá-las, tudo ainda não passa de percepção. Marcas são construídas por meio da comunicação e esta, quando bem feita, deixa rastros na sua trajetória – estes carregarão significados transformando-os em valores que farão a diferença ao criar o correto posicionamento na mente das pessoas.
O design da marca – o seu visual concreto – deverá conter em si todos os significados atribuídos à empresa. É uma atividade complexa que exige um pouco de vários saberes humanos: sociologia, antropologia, psicologia, literatura, teatro, artes plásticas, pesquisa, cinema e, principalmente, o da arte do saber criar e contar uma boa história, o que os jovens chamam hoje de storytelling é coisa antiga.

Quando começamos a construir a marca do Bamerindus há mais de 40 anos pensamos: “somos um banco novo, com serviços e produtos ainda desorganizados, vamos fazer com que as pessoas gostem da gente para que elas perdoem os nossos erros e enquanto isso arrumamos a casa”. A estratégia deu tão certo que 15 anos depois de a marca Bamerindus ter saído do mercado muitos ainda dizem “Vou ali, no Bamerindus.” – em vez de “Vou no HSBC”. A marca também aparece em pesquisas Top of Mind em diversas regiões. Pergunta-se: “Diga o nome de um banco?” – algumas respostas são “Bamerindus”. Foi este fazer com que as pessoas gostassem da gente, por meio de histórias e abordagens emocionais que fez a marca ser tão querida pela população brasileira.
Este envolvimento emocional se deu também por meio de uma preocupação constante de segmentação por região – assim, o Bamerindus era gaúcho no Rio Grande do Sul, mineiro em Minas, baiano na Bahia… Cada região pensava que o banco era local, da sua cidade. Somou-se a isto uma firmeza e disposição de só tratar e mostrar em sua comunicação assuntos genuinamente brasileiros – trilhas musicais, temas, abordagens, cores e até a logotipia que era uma bandeira do Brasil estilizada.
O mesmo se deu com a marca O Boticário a qual ajudei a construir e defender durante um bom tempo. Para O Boticário usamos a técnica de criar e contar histórias o tempo inteiro. Assim foi criado o seu Serviço de Atendimento ao Consumidor (um dos pioneiros no Brasil), o Clube da Garota Taty, a Fundação Boticário de Proteção à Natureza (esta para criar valores subjetivos à marca) e vários outros. A meta era sempre a de criar ações de proteção da marca – fazer com que o nosso público alvo não envelhecesse, pois as pesquisas indicavam que ano a ano a mulher que comprava nossos produtos poderia envelhecer. As ações de defesa de marca abrangiam também o lançamento de produtos para gente mais jovem como, os perfumes OPS, a linha Ma Cherie e outros. Pensar produtos adequados também podem ser fatores de construção e defesa de marcas.
A filosofia explica que ideias, objetos e valores só existem em nossa cabeça, por exemplo: a palavra ou a imagem de um cachorro não morde, mas significa as ideias que associamos ao animal e às suas qualidades. Assim é com as marcas. Elas vivem nas nossas emoções, cabe ao profissional encarregado de geri-las fazer bem o seu trabalho.
Eloi Zanetti é o autor do texto, escritor, palestrante, consultor em marketing e comunicação corporativa e vendas. – [email protected]
