ARTIGO | A era dos nômades digitais

28 de Dezembro de 2020

"Cada vez mais, aquele anúncio da Microsoft — com o profissional trabalhando em uma ilha paradisíaca — deixará de ser um sonho distante para se converter em algo absolutamente possível"

Head of Experience Design da BriviaDez, Fabiano Nadler

Por Fabiano Nadler, Head of Experience Design da BriviaDez.

Há muitos anos, vi um anúncio da Microsoft em edição da Wired. A imagem era de um homem com um notebook deitado em um pequeno barco em uma ilha paradisíaca, acompanhada pela seguinte chamada: "Agora, você tem tecnologia para trabalhar a partir de qualquer lugar do mundo. Isso significa que o seu trabalho se parecerá mais com a sua vida pessoal, ou que a sua vida pessoal se parecerá mais com o seu trabalho". 

Foi uma provocação que ficou na minha cabeça por todo esse tempo e que, neste ano, fez mais sentido do que nunca. Um ano em que nos vimos obrigados a misturar nossa vida pessoal com o nosso trabalho, quando uma criança aparecer em uma videoconferência se tornou algo natural, ao invés de uma gafe. Antes da pandemia, uma situação como essa virava manchete mundial, como no caso da entrevista de um especialista em que os seus filhos invadiram o seu escritório enquanto estava ao vivo em um programa de TV.

Como não poderia deixar de ser, a edição deste ano da Web Summit tratou com bastante ênfase os efeitos da pandemia na nossa rotina de trabalho. Desde os efeitos psicológicos nas equipes, a ansiedade, o burnout, até os desafios de realizar tarefas coletivas, simples quando realizadas fisicamente como brainstorms e workshops, mas que precisaram ser reinventadas para acontecer de forma remota.

Esse impacto da pandemia na forma como trabalhamos pode ser analisado sob diferentes perspectivas. Trago aqui reflexões a respeito de implicações importantes que provavelmente ficarão, mesmo em um mundo pós-pandemia.

 

Mudando o significado de freelancer

Micha Kaufman, CEO da Fiverr, uma das maiores plataformas de profissionais freelancers do mundo, relatou em sua palestra na Web Summit sua percepção sobre a mudança no comportamento dos profissionais cadastrados no seu negócio. No início da década, a solução era procurada por profissionais que queriam ocupar seus horários vagos com outros jobs para garantir uma renda extra. Era assim, também, que as empresas percebiam esse tipo de profissional: alguém disposto a fazer um job extra à sua atividade principal. No entanto, mais recentemente, esse perfil mudou, e é cada vez maior o número de profissionais que adere à plataforma em busca de um modelo de trabalho que lhe garanta mais flexibilidade e autonomia. Pessoas que largam a estabilidade de um emprego fixo e trabalham por projetos por opção. Trocam a rigidez dos horários fixos e da carga de trabalho diária para trabalhar quando rendem mais e são mais produtivos. Mudou de uma necessidade para um modo de vida. E as empresas também passaram a visualizar esse tipo de profissional com outros olhos. Percebendo as vantagens na sua contratação.

 

Força de trabalho líquida

Em sua palestra, Micha Kaufman apresentou resultados de pesquisa realizada com empresas que contratam os serviços da Fiverr: 52% dos respondentes sinalizaram que irão alocar uma fatia maior do seu orçamento em profissionais freelancers. Eles entendem que esse modelo permite à empresa maior flexibilidade na alocação do seu budget de pessoal. Possibilita à empresa modificar o tamanho e o perfil de sua força de trabalho, de acordo com a demanda. É claro que, para isso, a empresa tem de estar preparada para lidar com o perfil desse tipo de profissional. Deve fornecer a ele um ambiente no qual possa desfrutar das vantagens do modelo, como a flexibilidade de horário, a possibilidade de trabalhar de qualquer lugar, sem a necessidade de se deslocar ou estar presente fisicamente em um determinado local, além de maior autonomia para tomar decisões. Esse é um desafio de transformação cultural importante para organizações e gestores, pois modifica o mindset tradicional de como encaram a sua força de trabalho — saindo de um modelo centralizador e controlador para um modelo descentralizado e autônomo, exigindo também um novo perfil para os profissionais.

 

Descentralização urbana e os nômades digitais

Esse modelo também pode levar a mudanças importantes com relação à distribuição populacional. Ao contrário do modelo até então vigente, que levava à centralização das pessoas em grandes centros urbanos, onde os melhores empregos estavam, esse formato permite aliar a qualidade das posições nas empresas com uma maior qualidade de vida. É viável trabalhar em um grande grupo multinacional, sem ter de encarar os desafios e problemas das grandes cidades. Ao longo dos próximos anos, podemos ver uma descentralização populacional, pessoas com bom nível de renda, morando em cidades menores, com melhor qualidade de vida. Isso trará desafios também para o setor público, pois cidades que oferecerem uma melhor estrutura em termos de educação, saúde e segurança certamente atrairão mais profissionais.

O mesmo vale para países. Já vemos movimentos de nações como a Estônia, que oferecem facilidades para atrair esse tipo de profissional. No entanto, quando o trabalho pode ser feito de qualquer lugar que possua conexão com internet, será cada vez maior o número de profissionais que irá transitar entre diferentes países — passando períodos maiores em diferentes locais e aproveitando para conhecer diferentes lugares, enquanto mantém a sua rotina de trabalho. Uma geração de nômades digitais.

 

Desafios jurídicos e econômicos

Esse contexto também traz uma série de desafios de ordem jurídica e econômica para organizações e governos. Por ser um modelo que transcende fronteiras e que surge a partir de um novo modelo de relacionamento entre empresas e profissionais, não existe uma regulação no nosso país que contemple todos os pontos necessários para cobrir todos os pontos necessários para garantir as vantagens do modelo para as empresas e para os profissionais com segurança jurídica para ambas as partes. Com pessoas espalhadas em diferentes locais do mundo, questões triviais como a realização do pagamento, com suas diferentes moedas e regras locais de taxação se tornam complexas. Nesse ponto, empresas de países como o Brasil, com câmbio desvalorizado frente a moedas de outros países, perdem competitividade, pois restringe o mercado global, visto que profissionais que residem em locais com moeda mais forte tornam-se mais caros, ao mesmo tempo em que a sua força de trabalho local fica atrativa para companhias estrangeiras.

Há um longo caminho pela frente para evoluir e amadurecer o modelo. As empresas e os profissionais precisam responder aos desafios que o mercado trará ao longo dos próximos anos. Cada vez mais, aquele anúncio da Microsoft — com o profissional trabalhando em uma ilha paradisíaca —  deixará de ser um sonho distante para se converter em algo absolutamente possível. 

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