O filme Intocáveis, em cartaz nos cinemas de Florianópolis, não por acaso se tornou no segundo maior sucesso de bilheteria da história do cinema francês. Mesmo fazendo uso de estereótipos e de clichês, o roteiro – com dois atores principais opostos (protagonista e antagonista), Driss (Omar Sy), que é negro, pobre e jovial, e Philippe (François Cluzet), que é branco, milionário e tetraplégico – é inteligente. Além disso, Intocáveis, dirigido pela dupla de diretores Eric Toledano e Oliver Nakache, tem um ritmo envolvente e se apega no carisma e no excelente desempenho dos dois atores principais. Sem ser polêmico, Intocáveis consegue agradar a todos que gostam de uma boa e sensível comédia, que faz variar os sentimentos da risada à reflexão.
Guardada as devidas proporções entre a genialidade de Peter Sellers e o excelente desempenho de François Cluzet, o filme Intocáveis me fez rememorar o genial Muito Além do Jardim, de Hal Ashby. Por último, assistir a um belo filme, num cinema com a tela das dimensões e o conforto da sala 1 do cine Espaço Beiramar é qualquer coisa de maravilhoso.
Claquete
– Suplicy no MinC. A presidente Dilma Rousseff convidou nesta terça-feira a Senadora Marta Suplicy (PT-SP) para exercer a função de Ministra da Cultura, no lugar da artista e compositora Ana de Hollanda, que estava no cargo desde o início de 2011. O grande desafio da nova Ministra Marta Suplicy é dar continuidade ao excelente trabalho realizado por Gilberto Gil e seu sucessor Juca Ferreira;
– 23 anos do FUNCINE. O Fundo Municipal de Cinema de Florianópolis está comemorando 23 anos no dia 14 de setembro, sexta-feira, às 20 horas, no Teatro da Ubro, em Florianópolis, com o lançamento de quatro filmes. Além da comemoração e das pré-estreias, serão abertas as inscrições para o concurso de vinhetas da entidade. Irão ser lançados os filmes “Documentário”, de Rafael Schlichting, “Vento Sul”, de Renan Cabral Fontana, “O Travesseiro de Penas”, de Jefferson Bittencourt, e “Eles foram por ali”, de Gabriel Bueno Almeida. Será exibido também “Linha do Mar”, de Felipe Vernizzi. Todos foram premiados e realizados com recursos do edital Armando Carreirão, do Funcine. Os candidatos a prefeito de Florianópolis deveriam dar mais atenção a boa colheita que os parcos investimentos no Fundo Municipal de Cinema têm proporcionado à cultura local, sobretudo, ao audiovisual;
– Curta Maria Emília. A Mundo Imaginário Produções e a 2 Plátanos Filmes estão lançando a trilogia da dor – Alva Paixão, Roda dos Expostos e Um Tiro na Asa – e o curta filmado na Provence/França, Mulher Azul, reunidos no DVD intitulado curta Maria Emília. Uma justa homenagem a uma das mais talentosas cineastas da terra e ao público que gosta de curtas poéticos e viscerais. Abaixo reproduzimos um texto de Jayro Schmidt sobre o filme Mulher Azul e a capa do DVD, criada por Gustavo Remor e Andersson de Brito Vicente.
DIÁRIO FILMADO
por Jayro Schmidt
O escritor catarinense Renato Tapado, que vive em Buenos Aires, é dado a viagens e diários, que são inseparáveis, mesmo quando a viagem é mental como foi o caso de Mulher Azul, livro reeditado e lançado em Florianópolis no início de agosto.
O diário é feminino, traduzido para o espanhol pelo próprio autor, e assim pode-se saborear na outra língua sons que nos enviam ao que já sabemos, porém renovados, sob outra ótica, e numa especial com o filme realizado por Maria Emília de Azevedo, que foi projetado no início do lançamento, no Centro Cultural Badesc.
Filmar um diário é sempre um desafio maior, pois se trata de solilóquio. Mas, por si mesma, a imagem diz essa dimensão mais sutil, interna, na superfície de sua pele. É o que se vê no filme, com roteiro, de Marcelo Esteves, que pontua o teor do diário e filmado com os mesmos recursos: enquanto a personagem escreve, a atriz Patrícia Teotônio, as imagens se estendem no hipocampo do espectador, antes passando pelo campo periférico das retinas, onde começa a surgir luminosidade na escuridão.
A estatura física da mulher do diário é tão acentuada quanto a sua força mental, mas ela oscila, quase soçobra na distância entre o que deseja e sua realização. Nesse aspecto a diretora e o roteirista foram completos na encenação do livro de Renato Tapado, que ao se deixar levar para onde as palavras surgem, vai a contrapelo da literatura.
Roteiro e direção fizeram o mesmo e ainda mais com a região escolhida e as locações de um filme sem pressa e velado, mas intenso como deve ser o cine-poema, essa raridade na cinematografia brasileira. E isso Maria Emília vem perseguindo desde seu primeiro filme, tendo o auge em Roda dos expostos, e, agora, outro momento álgido com Mulher azul.
O cinema poemático, como se sabe, tem na imagem a sua principal ferramenta que, no caso do filme de Maria Emília, fez a câmera deslizar sobre as coisas com a mesma curiosidade com que se experimenta o lugar quase inominável entre o visível e o invisível. Justamente o lugar da mulher sempre azul, no limiar e na fronteira.
Apesar da total presença da personagem, no entanto não está dissociada do ambiente, da circunstância, daí a estética afetiva de Maria Emília ao filmar as linhas sensíveis entre o sujeito e seu objeto, e, o melhor, sua percepção semiótica. Quando predominou a semiótica, em várias passagens, o filme cresceu como poema ou como fotograma versejado, ora aproximando-se da narração ora afastando-se, pois o filme teve que lidar com mundos paralelos, mas não necessariamente antagônicos.
Outras leituras podem ser feitas de Mulher azul, sem, contudo, se poder deixar à margem a intermediação do estético com o semiótico.

