Uma entrevista histórica
25 de Março de 2013

Uma entrevista histórica

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1. Na recepção de um salão de convenções, em Fortaleza:

– Por favor, gostaria de fazer minha inscrição para o Congresso.
– Pelo seu sotaque vejo que o senhor não é brasileiro. O senhor é de onde?

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– Sou de Maputo, Moçambique.

– Da África, né?

– Sim, sim, da África.

– Aqui está cheio de africanos, vindos de toda parte do mundo. O mundo está cheio de africanos.

– É verdade. Mas se pensar bem, veremos que todos somos africanos, pois a África é o berço antropológico da humanidade…

 

– Pronto, tem uma palestra agora na sala meia oito.

– Desculpe, qual sala?

– Meia oito.

– Podes escrever?

– Não sabe o que é meia oito? Sessenta e oito, assim, veja: 68.

– Ah, entendi, meia é seis.

 

– Isso mesmo, meia é seis. Mas não vá embora, só mais uma informação:a organização do Congresso está cobrando uma pequena taxa para quem quiser ficar com o material: DVD, apostilas, etc., gostaria de encomendar?

– Quanto tenho que pagar?

– Dez reais. Mas estrangeiros e estudantes pagam meia.
– Hmmm! que bom. Ai está: seis reais.

– Não, o senhor paga meia. Só cinco, entende?
– Pago meia? Só cinco? Meia é cinco?

– Isso, meia é cinco.

– Tá bom, meia é cinco.

 

– Cuidado para não se atrasar, a palestra começa às nove e meia.

– Então já começou há quinze minutos, são nove e vinte.

– Não, ainda faltam dez minutos. Como falei, só começa às nove e meia.

– Pensei que fosse as 9:05, pois meia não é cinco? Você pode escrever aqui a hora que começa?
– Nove e meia, assim, veja: 9:30

– Ah, entendi, meia é trinta.
– Isso, mesmo, nove e trinta. Mais uma coisa senhor, tenho aqui um folder de um hotel que está fazendo um preço especial para os congressistas, o senhor já está hospedado?

– Sim, já estou na casa de um amigo.

– Em que bairro?

– No Trinta Bocas.

– Trinta bocas? Não existe esse bairro em Fortaleza, não seria no Seis Bocas?

– Isso mesmo, no bairro Meia Boca.
– Não é meia boca, é um bairro nobre.

– Então deve ser cinco bocas.
– Não, Seis Bocas, entende, Seis Bocas. Chamam assim porque há um encontro de seis ruas, por isso seis bocas. Entendeu?

– E há quem possa entender? Meia é 6? Meia é 5? Meia é 30 e tem Meia  que não é meia e também Meia que é usada no pé!!!!

 

Como saber???

 

2. O último número da Revista Propaganda (edição de março este) trouxe uma entrevista do Orlando Marques que merece ser lida, relida e discutida, pela importância dos assuntos tratados.

 

Orlando Marques, você sabe, é o próximo presidente da ABAP. Toma posse em abril. Conheço-o há muito tempo, e sei da competência, da sinceridade com que se expressa e da coragem dele.  Nessa entrevista, ele aborda assuntos da mais alta importância para o setor. Vale a a pena tomar conhecimento.  Você pode discordar dó que ele diz. Melhor ainda: conhecendo os pontos de vista dele, você terá condições de protestar

 

3. Com efeito, Orlando Marques aborda, com rara clareza,  pontos do maior interesse da atividade de comunicação. A entrevista dele serve, no mínimo, para esclarecer pontos ainda confusos para muitos publicitários. Servirá, no mínimo, para discussões sérias e objetivas dos problemas do setor, porque, a partir dela, ninguém  misturará seis com meia dúzia.

 

4. Três pontos, particularmente, chamam a atenção na entrevista.

 

Quando ele é duro com os políticos que acusam a publicidade de anunciar determinados produtos e se de quem os fabricam. E bota o dedo na ferida:

 

“De onde os políticos brasileiros tiram o sustento de suas campanhas políticas?  De doações do empresariado. Esses empresários fazem doações porque querem, acreditam ou têm interesses. Então é mais fácil atacar um anúncio dó McDonald’s do que atacar o McDonald’s”.

 

Orlando Marques é incisivo também quando se refere às gerações mais jovens da comunicação:

 

“O projeto (da minha gestão na ABAP) é fortalecê-la. Ela precisa de gente jovem para trabalhar com os mais experientes. O que vejo é um certo desinteresse das novas gerações. Não sei se porque não foram ouvidas, não tiveram voz, não acreditam ou não consideradas. (…) Minha geração está ficando velhinha,  e daí quem vai carregar esse andor?”

 

Com a mesma objetividade, ele critica os anunciantes que espremem  as agências, em busca de custos menores, lembra que sem margem de lucro fica impossível para as agências pagar melhores talentos e diz:

 

“Uma grande marca não é construída com mediocridade.”

 

Parodiando a conclusão da piada lá de cima: sem mensagens talentosas, como o consumidor consegue entender.

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