TV nocauteada
05 de Novembro de 2013

TV nocauteada

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Dirigente de uma emissora confessou-me que protela a iniciativa de inovar com profundidade a programação e até mesmo descontruir os atuais modelos de jornalismo, por exemplo, por temer a reação de agências de publicidade, que ainda estariam radicalmente atreladas às estruturas tradicionais da mídia.

Fiquei a me questionar se a lentidão do crescimento de anúncios na mídia social também decorreria dessa obstinação interminável de agências, quem sabe alimentada  pela garantia de retorno financeiro dada pelo tripé rádio, TV e jornais, além de outdoor, banner, etc.

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Não posso concordar que essa argumentação seja a principal causa do desempenho engessado e apático do jornalismo na mídia tradicional, diante de um cenário dinâmico, instantâneo e de inovação instigante que é a internet. Vejo que a precaução dos publicitários é com a reação do público a eventuais novos programas – raros hoje em dia –  e não um temor preventivo a mudanças nos conteúdos das emissoras e jornais.

Quem sabe o embargo esteja na voracidade das empresas de quererem lançar novos produtos previamente sustentáveis, com um aval das agências. Isto realmente é inconcebível, até porque a inovação equivale a investimento em qualidade. O velho e surrado esquema, de vender o produto antes de ir ao ar precisa dar lugar à competência e à competividade moderna.

O que é visível é a ausência de criatividade nas mídias tradicionais. A TV Globo ressuscitou o “Sai de Baixo” no desespero de resgatar audiência em um momento – domingo à noite – em que o cidadão se prepara para o início de uma semana de trabalho, desafios, etc. Quem sabe a emissora também recoloque em horário nobre o “Bem Amado”, considerado o melhor programa de humor qualificado da TV brasileira. Essa aflição global denota claramente a ausência de criatividade. A Globo tem a melhor estrutura de produção da América Latina e de excelente qualidade. E há muitos anos que programas de humor, por exemplo, estão ausentes. Você leitor, da geração baby boomer, lembra-se perfeitamente de que o humor era a grande referência nos cardápios da televisão brasileira até o final dos anos 80.

A crise de criatividade e de inovação parece decorrer da dormência produzida pelo impacto da tecnologia da informação nos jornalistas e profissionais de artes. Nada se cria, tudo se copia. As escolas precisam investir em escolas de criação, aliás, necessárias a todas as profissões, porque a inovação só se processa no âmbito da tecnologia, onde no piscar de olhos surgem celulares e outros equipamentos novos.

Já o rádio, que no final dos anos 50 foi condenado ao desaparecimento em função do surgimento da televisão, é o que mais está sincronizado com a revolução da tecnologia da informação. Mesmo assim, o seu jornalismo carece de interatividade, o que denota a ausência de investimentos em profissionais qualificados. Aliás, não se faz jornalismo sem bons profissionais, tanto em qualidade quanto em quantidade. A rádio precisa urgentemente acelerar a interatividade, porque a velocidade – embora alguns teóricos contestem – ainda é a sua marca forte.

O problema da televisão também é a neurose com os resultados de pesquisas de opinião. Há cerca de 15 anos, quando os índices de audiência do Jornal Nacional baixava de 80%, a direção da Globo entrava em desespero. Hoje, o esforço é para não cair além dos 25%. E o que a emissora tem feito para mudar? Ela simplesmente ainda acredita no cacoete de telespectadores de continuar clicando automaticamente em seu acesso. Uma das poucas mudanças promovidas pelo Jornal Nacional em nível de conteúdo, foi a de fazer prevalecer o noticiário policial, contrariando a sua velha e surrada tese de que a audiência requerer assuntos alegres e que mostrem gente rica e feliz, como faziam também as novelas, que passaram à ficção da luta entre o bem e o mal no cotidiano brasileiro.

O trágico é uma forma de acobertar a incompetência. E quem gosta do noticiário policial na TV? Dizem que seriam as classes C e D. Bobagem! Até porque se fosse essa a realidade os grandes anunciantes de produtos destinados às classes privilegiadas buscariam outras alternativas para anunciar. Com certeza, algumas pesquisas indicam que o povo gosta mais de ver e ouvir fatos sobre violência. Mas isso não está sendo mensurado com outras opções de programas de qualidade porque não existem, exceto a novela que ainda cativa.

Vocês, leitor, sabe daquela história do grande pecuarista que adquiriu os melhores animais do rebanho leiteiro do país, implantou estruturas automatizadas de produção etc. e que não venceu com seu negócios? Pois é, ele não aprendeu a fazer queijo. Se a TV brasileira não investir com criatividade e inovação em seus cardápios, o youtube vai incomodar mais ainda, sem precisar humilhar, mas já nocauteou.

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