Hoje faz uma semana que a querida Fernanda Bornhausen Sá, fundadora e presidente do Portal Voluntários Online e uma das principais referências de voluntariado no Brasil (eita orgulho!) me convidou para postar uma história ou experiência sobre algum trabalho voluntário que faço; a ideia era fazer parte de uma blogagem coletiva em homenagem ao Dia do Voluntariado (#servoluntariovaleapena). Pois é, enrolei até agora. Sabe por quê? É que fiquei morrendo de vergonha.
Gastei um tempo pensando em que contribuo como voluntária. É óbvio que sou doadora de sangue e integro o cadastro de medula óssea, mas acho que isso nem conta, pois é mais responsabilidade civil do que outra coisa. Não tem nenhuma justificativa para uma pessoa saudável não fazer isso.
Tá, também já adotei um gatinho desenganado, à beira da morte; mas também acho que não conta. Hoje ele é um fofinho tão querido que ganhei muito mais do que ele nesse negócio. Na verdade, não tenho muito jeito para boa samaritana; uma vez fui ajudar um cego a achar um endereço e fiz o coitado andar o dobro da distância porque me distraí na conversa (voluntária loira, fazer o quê?).
Fato que já dei trocentas palestras gratuitas para estudantes de todos os níveis, mas isso está ficando cada vez mais raro por causa da distância. Também não sei se dá para classificar como trabalho voluntário perto do mundo de transformações que gente como a Fernanda provoca. Olho as apresentações e os cases e fico pensando que não faço nada mesmo para melhorar o mundo.
Mas será que sou tão egoísta assim que não tenho nenhuma história decente de voluntariado para contar? Procurando bastante, achei uma coisa que eu faço que talvez mude um pouco a vida das pessoas. É simples: eu respondo e-mails.
Pode parecer banal, mas a maioria das pessoas não faz isso. Por algum motivo que desconheço, recebo toda semana mensagens de gente no auge de suas crises existenciais e profissionais. Esse povo escolheu me escrever para desabafar, para pedir conselhos, para trocar ideias. Apesar de não ter nenhuma formação profissional na área de psicologia, tento responder da melhor maneira possível compartilhando minha experiência de vida.
É pouco, eu sei, mas me custa muitas e preciosas horas por semana. Nem sempre as pessoas dão sinal de vida depois das minhas longas respostas (boa educação não é muito comum na web), mas o que me faz continuar esse "trabalho" são justamente as que respondem. São mensagens bem emocionantes de gente que escreveu meio que sem esperança de receber algo de volta; gente que ficou bem feliz e se acalmou na confusão que estava a vida; que começou a pensar em outros caminhos; que conseguiu vislumbrar outras possibilidades que não haviam lhe ocorrido. Gente que encontrou um ombro e um abraço virtual e que talvez, por isso, se sinta menos sozinha. Gente que, mesmo nunca tendo conhecido pessoalmente, virou amiga de coração.
Talvez meu trabalho voluntário seja esse: sou tia. E tia sem filhos, que é um tipo diferente. Tia Sem Filhos é aquela que tudo ouve e nada julga; não se escandaliza com nenhuma confidência, não conta nada pra ninguém. É diferente de mãe, que precisa ser referência de bom comportamento; sente-se responsável e acha-se na obrigação de dar os conselhos certos.
Tia Sem Filhos não; essa quase não dá conselhos. Mostra caminhos, discute possibilidades, ouve sem fazer cara de espanto e não tenta conduzir a conclusão para respostas seguras. A função da Tia Sem Filhos é ouvir muito e pensar junto. Parece pouco (e é), mas para algumas pessoas, acho que faz diferença.
Trabalho voluntário como Tia Sem Filhos vale, Fernanda?
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* Ilustração: Chloé Fleury

