Quando Lula, Ricardo Teixeira, Joseph Blatt, João Havelange et caterva conseguiram aprovar a realização da Copa do Mundo no Brasil em 2014, havia outros objetivos, muito distantes do campo da disputa esportiva.
Nosso ex-presidente devia estar eufórico: eleições em 2014, com os índices de aprovação pessoal mais o futebol em casa, vai ser barbada – o PT coloca quem quiser lá. Ninguém vai ligar para debate político, mensalão e outras mazelas vão ser ofuscadas pelo noticiário da Copa. E se o Brasil ganhar, aí então não tem pra ninguém.
Depois vieram as obras dos estádios impingidas pela FIFA – 34 bilhões, dos quais no mínimo 3,4 bilhões foram para os bolsos da turma. Já pensaram o que é possível fazer pelo povo, só com esses 10% que escorregam para meia dúzia, na área da educação por exemplo?
Sabendo que estamos sendo manipulados, violentados como cidadãos, como torcer pela seleção? Confesso que não consigo. Vocês podem questionar: e a torcida nos estádios, e sua animação? E eu faço aqui uns cálculos – somos 200 milhões e os 500 mil abonados que podem ir e levar suas famílias para ver os jogos representam 0,25%, que na sua maioria ou não têm consciência de como estão sendo manipulados ou não ligam. E as câmeras de TV mostram cenas pontuais, sem o calor de um FLA FLU, de um São Paulo e Corinthians, de um GRE NAL. Além disso. as campanhas dos patrocinadores, quase todas irreais, maximizando uma euforia que não se nota mais nas ruas, acentua ainda mais esse sentimento.
Só que o tiro saiu pela culatra – o povo saiu da letargia, não tem mais volta. Os custos da Copa, que são rotulados de investimento, mas que de investimento não têm nada – são despesas mesmo, e desnecessárias, vão funcionar contra. Os jovens se encarregaram de desmascarar a negociata, fazem as comparações e já julgaram, são civicamente contra o absurdo.
O movimento dos jovens nas ruas não tem uma pauta definida, nem precisa ter. O que eles estão comunicando é que não aguentam mais tanta malandragem, mentira, incompetência, tanta roubalheira em todos os campos. São tantas e tão variadas queixas, que não caberiam mesmo numa pauta que, aliás, não faz a mínima falta, porque o que importa é mostrar que estamos vivos e conscientes e que queremos mudar tudo, não queremos mais que políticos desonestos nos manipulem.
Penso até que o debate político vai, sim, pegar fogo em 2014, a despeito do futebol.
Enquanto isso vou curtindo o futebol e a postura da seleção da Espanha, a alegre humildade dos taitianos, e vendo os jogos do Brasil, com um sentimento amargo de que deveria estar em passeata pelas ruas e não na frente da televisão.
Futebol paixão, só na volta do brasileirão.
