Pessoas, um patrimônio que não tem preço
18 de Março de 2013

Pessoas, um patrimônio que não tem preço

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1. Existem empresários, no negócio da publicidade, que têm prazer em demitir funcionários. Trabalhei com dois.

Um deles, durante oito anos. Ele cuidava do atendimento e da parte financeira da agência. Eu, do resto.

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Volta e meia ele entrava na minha sala para me acusar:

“Você é muito bonzinho. Nunca mandou ninguém embora!”

Enquanto isso, a criação brilhava e ele não conseguia manter alguém no atendimento por mais de seis meses. Uma fantástica rotatividade que me obrigava, muitas vezes, correr no cliente para segurar a barra.

Um dia, me demitiu também, embora a agência já fosse a vigésima do ranking e em ascensão . Começou, então, a fazer o que sempre quis: botar os funcionários  na rua.

A agência começou, então, a perder clientes. Um ano depois, fechou.

Com o outro, daqui de Santa Catarina, a coisa era muito mais dramática. Toda segunda-feira me chamava na sala dele para anunciar:

“Vou demitir fulano e fulano”.

E demitia. Desnecessário lembrar que as segundas-feiras eram dias de enorme tensão na agência. E que custava muito manter uma relativa tranquilidade da equipe.

Minha paciência se esgotou em dois anos. Pedi demissão, embora, apesar de tudo,  a agência vivesse um bom momento,  e fui para  a Prime, um dos melhores lugares onde trabalhei. Depressinha aquela agência perdeu os clientes.

2. Semana passada fui à emocionante comemoração dos cinquenta anos da Propague. Foi uma noite perfeita: música excelente, jantar de ótima qualidade, gente de alto nível, mas principalmente um show de reconhecimento do trabalho, do talento e da contribuição das pessoas.

Houve um momento em que o Roberto Costa soprou no meu ouvido:

“O negócio é apostar nas pessoas.”

Em pessoas com um brilho diferente”, devia ter completado.

3. Não completou ali, mas fez isso no livro 50 Anos de Vanguarda – a História da Propague, que li na manhã do dia seguinte. Ali, Roberto Costa foi explícito: “Tive a sorte …. de ter entrado nesse negócio quando a comunicação no Brasil ainda estava em processo de profissionalização. Era uma época muito extrovertida, com pessoas de personalidades distintas.
Hoje, parece que todo mundo tem MBA, todo mundo frequentou as mesmas aulas, leu os mesmos livros e, por consequência, traz as mesmas soluções pasteurizadas. Mas quando o mercado da propaganda estava em início de formação, a intuição era a principal ferramenta.
Grandes nomes do marketing eram na verdade grandes vendedores que desenvolveram suas habilidades na prática, na rua, com a barriga no balcão.
Havia artistas plásticos trabalhando como diretores de arte, escritores e jornalistas no papel de redatores, e não é difícil imaginar como o lado humano desse nosso negócio era mais rico, mais diverso e divertido.
Embora existam hoje profissionais altamente preparados para cada função, e mesmo reconhecendo que dominar  técnicas e ferramentas é sempre bom para os negócios, as relações interpessoais, os improvisos, a riqueza cultural que aquele ambienta propiciava são muito mais difíceis de se encontrar no dia de hoje.”

São as pessoas fora da curva, aquelas que possuem um ponto de vista único e original que se tornam verdadeiramente memoráveis.

(grifo meu)

“Conviver com pessoas assim tornava o nosso dia-a-dia mais descontraído, mais dinâmico e, certamente, mais criativo.

Talvez esse seja o segredo que permitiu à Propague chegar aos 50 anos firme e forte. Percebi muito cedo que aquele jeitão solto, mais intuitivo, livre de amarras e de regras de comportamento, fazia da Propague uma agência criativa, que sempre soube surpreender, inovar e apresentar  caminhos e pontos de vista originais. E procurei, nos meus 40 anos de Propague, manter esse espírito vivo, buscando pessoas que se encaixavam nesse perfil. Até que, num determinado momento, isso se tornou uma seleção natural.

O próprio ambiente da agência favorecia a permanência das pessoas com um colorido a mais, enquanto aquelas que preferiam viver em preto e branco  percebiam que esse lugar não era para elas.

Espero que essa energia continue a pulsar pelos próximos 50 anosPorque se é para dedicar uma vida inteira a uma causa, que pelo menos você possa se divertir enquanto faz isso.”

4. Na última página do livro, Roberto sintetiza esse pensamento, repetindo uma frase de Kennedy:

“O limite do homem é o limite dos seus próprios sonhos.

5.     Uma baita aula.

Como seria bom se aqueles dois fracassados empresários que citei no começo destas mal traçadas tivessem ouvido o Roberto. E tomara que professores e estudantes o ouçam. Enquanto é tempo.

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