O luxo e o lixo
28 de Fevereiro de 2013

O luxo e o lixo

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As duas versões do mangue da Costeira, nas fotos de Mylene Margarida As duas versões do mangue da Costeira, nas fotos de Mylene Margarida

 

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Costumo caminhar diariamente pela pista que vai do Saco dos Limões à Costeira do Pirajubaé, em Florianópolis. Um circuito agradável, numa grande área verde onde se descortina o mar, o mangue e as montanhas. A maioria dos caminhantes, mesmo desconhecidos, se cumprimenta. Gesto de educação cada vez mais raro. O pôr do sol, sempre diferente pelo contraste de cores com as nuvens, traz beleza e paz ao cenário que margeia, a distância, a pista de acesso ao sul da Ilha. No caminho, garças, corujas, canários, rolinhas, sabiás, bem-te-vis, gralhas, joões-de-barro, gaviões, saracuras, maçaricos, bicos-de-lacre, anus, corruíras, tico-ticos, biguás, fragatas, frangos d’água, gaivotas, trinta-réis e outras espécies. Uma rica avifauna que torna o passeio ainda mais agradável. Um luxo! Ou quase. Não fosse o lixo. Porque há uma espécie do reino animal que destoa desse ambiente de beleza, por sua ação deletéria: o ser humano. Difícil entender que décadas de informação ecológica, por todos os meios, inclusive os de comunicação com seu largo alcance, não conseguem conscientizar o mais inteligente dos seres vivos a parar de jogar lixo por onde quer que ande ou trafegue.

Houve um tempo, já bem distante, em que não era incomum ouvir de alguém da família: “Leve o lixo lá fora”. E o lixo – quase sempre orgânico – era depositado em algum lugar, geralmente enterrado. Tempo distante do consumismo atual, quando poucas eram as coisas descartadas. Hoje, boa parte dos humanos vai deixando um rastro de lixo por onde quer que transite, a pé ou de carro. Atualmente se sabe que não existe “lá fora”. Tudo é “dentro” de um ecossistema que faz com que o lixo retorne para nossas casas e mesas, seja na comida, na água que bebemos, em vários objetos que acabam de alguma forma sendo contaminados por aquilo que descartamos.

Durante o trajeto de pouco mais de uma hora de caminhada, encontro muitas garrafas plásticas de água e refrigerantes, embalagens de todos os tipos, de balas, doces, salgados e outras guloseimas, sacolas plásticas, restos de construção, tubos, isopor, potes de sorvete, carteiras de cigarro, meias, tênis, chinelos e até uma bola de futebol, rasgada, jogada ao mangue depois de se tornar imprestável no campo de futebol de areia que margeia a pista. Há apenas um coletor de lixo, logo no início do trajeto. Seria aconselhável instalar pelo menos um a cada 500 metros ou um quilômetro, embora, infelizmente, seja pouco provável que venham a ser usados pelas pessoas que costumam jogar lixo em qualquer lugar. Boa parte do que aparece no local é jogado da janela dos carros em movimento e levado até o mangue pelo vento. A maior parte é despejada justamente em uma das áreas marginais à pista principal, que serve de estacionamento para os automóveis.

Não há mês em que algum trecho do percurso não apresente a vegetação queimada. Provavelmente, pelo puro prazer (incompreensível) de queimar. Lentamente a natureza se recupera. A mesma certeza não é possível ter em relação aos piromaníacos.

Os mangues ocorrem no Brasil desde o Oiapoque, no Amapá, até Laguna, no sul catarinense. Há cinco desses ecossistemas na Ilha de Santa Catarina. Um verdadeiro berçário de vida marinha, compondo a base alimentar de diversas espécies de organismos de valor comercial, entre eles moluscos, peixes e crustáceos. Produzem mais de 95% do alimento que o ser humano procura no mar. Eles também nos protegem da erosão, retêm sedimentos e poluentes. Prestam, enfim, uma rica contribuição à vida costeira. Estranhamente, são vistos por muita gente como áreas de pouco valor, sujas até.

Todo o lixo ali depositado é prejudicial à vida marinha, aos pássaros e a toda a fauna residente ou que dali retira o seu alimento. Os seres humanos incluídos.

Por onde caminho, desembocam na mansa baía dois canais de águas negras, em que, além do baiacu, raros peixes se criam. Às vezes, os entulhos estão visíveis na superfície.

Segundo o Projeto Tamar, estima-se que cerca de 6,4 milhões de toneladas de lixo marinho são descartadas nos oceanos e mares a cada ano. “Mais de 13 mil pedaços de lixo plástico estão, atualmente, flutuando em cada quilômetro quadrado de oceano. Muitos animais marinhos ingerem esses resíduos confundindo-os com alimentos”, informa o site do projeto.

Diversas espécies de peixes e frutos do mar são contaminadas por metais pesados e por toda sorte (azar!) de elementos químicos usados pela indústria na fabricação de produtos para uma insaciável cadeia de consumo humano. Ou seja, estamos lentamente nos envenenando e adoecendo por não cuidarmos dos resíduos que descartamos.

Há uma falsa sensação de que a comida que nos chega diariamente à mesa está “limpa”. Exames mais minuciosos, em muitos casos, poderiam mostrar o contrário. Mas engolimos tudo sem nos preocuparmos, pois as atenções geralmente estão voltadas para o entretenimento ou para o corre-corre da vida moderna.

Se poluímos o ambiente que nos cerca, os rios, as lagoas, o mar e o lençol freático, contaminamos igualmente a água que vamos beber. Se não somos capazes de levar uma simples garrafa de plástico a um local adequado para que seja reciclada, há pouca esperança. Estudos provam que 80% dos leitos de hospitais nos países em desenvolvimento são ocupados por pacientes acometidos por alguma doença transmitida pela água.

Sem cuidar do saneamento, doméstico e industrial, sem mudar o modelo de vida, baseado no lucro, na exploração do meio ambiente e na produção sem fim de produtos – a maioria supérfluos –, vamos comprometer o nosso futuro e, com ainda maior certeza, o futuro das próximas gerações.

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