Milênios atrás, toca o telefone na minha mesa de trabalho.
Era o meu chefe, o inesquecível Antonio Cabreira.
Para quem é muito novo, ou está há pouco tempo por aqui, o Cabreira mereceria um livro.
Um executivo competentíssimo, líder que deixava a gente criar, um ser humano de quem tenho saudade.
Eu era muito jovem ainda, morava longe da família e soube muitos anos depois, que ele tinha um contato secreto com meu pai, mesmo sem se conhecerem pessoalmente, informando como eu andava e as besteiras que eventualmente estivesse fazendo na vida e óbvio, tentava esconder a todo custo do velho. Dedo-duro…
Bem, mas o telefone havia tocado. Era o Cabreira, e com sua delicadeza, que todo mundo que trabalhou com ele conhece, disse:
“Ô vi&%#nho, vai na minha sala, pega a fita no9 e coloca AGORA no malote prá Criciúma, que eu tenho que fazer uma apresentação do audiovisual da RBS amanhã de manhã, c%$@!#o”…
Cabe mencionar que nosso personagem, durante os anos iniciais da presença da RBS em Santa Catarina, foi um dos principais embaixadores da empresa em seu processo, hoje mais que consolidado, de se tornar tão catarinense como todos os que aqui vivem.
Por isso, essas viagens de reunião com núcleos empresariais eram oportunidades especiais de aproximação com os mercados e com as comunidades.
E o audiovisual estava na tal fita no9, fita U-Matic (quem tem menos de 40 que procure no Google…), para a qual, óbvio, não havia equipamento disponível para checar se o que estava na caixa era o que se queria mostrar.
Mas como o tempo urgia, o negócio foi fita no envelope, sai correndo, envelope no malote, e ufa, missão cumprida.
Só que nessas horas, o Satanás vem pessoalmente dar expediente e cuidar do assunto. Afinal, dependendo do ponto de vista, um 6 fica muito parecido com um 9…
Não preciso dizer (ok, preciso sim…) que a fita chegou em cima da hora, sem poder ver primeiro (“a fita tá no ponto???” “tá, acho que tá”…), afinal, todo o PIB local reunido e esperando.
Foi um sucesso.
É que, entre as muitas atividades do querido Cabreira, ele era o palhaço Zás-Trás, todas as manhãs na televisão, personagem com quem ele dividia os palcos do estado aos fins de semana, com sua filha Aline (a Zastrinha), divertindo milhares de crianças. E o espetáculo deles estava com todas as cores na fita número 6. A que foi. E que divertiu dezenas de empresários, que gritavam “deixa! deixa!” quando o Cabreira, desesperado, corria para tirar a fita do equipamento.
E que por pouco (pelo menos assim eu achei na hora) não custou meu emprego.
Lembro essa estória para relembrar do generoso (porque não me mandou prá rua), maluco (porque riu mais que todo mundo dessa situação) e mestre Antonio Cabreira.
Mestre, porque me ensinou o valor do erro.
Os jovens de hoje estão sendo criados profissionalmente sob baixíssima tolerância ao erro.
Mas seria essa uma exigência dos tempos atuais, muito mais dinâmicos e conectados, mais intensos e obsolescentes?
Até concordo.
E observo ainda, uma tendência de entregar a profissionais muito jovens, responsabilidades muito grandes, o que é bom. A responsabilidade forja.
Acontece que mexemos com muito dinheiro e na nossa atividade, ROI será um termo cada vez mais utilizado e, principalmente, cobrado.
Assim a equação se complica. Precisamos assumir riscos, afinal, fazer o mesmo para sempre não dá.
Lapidar os profissionais do presente e do futuro, para que não tenham medo de ousar e tenham responsabilidade para perseguir resultados, deve ser função de líderes que preparem nossos jovens para desenvolver o equilíbrio emocional para lidar com o risco e o resultado, acertos e fracassos, blindando a vaidade, mas colocando os erros no seu devido lugar.
Mesmo hoje, quase 30 anos depois, seria bacana se tocasse o telefone, e de algum lugar, eu pudesse ouvir a voz do velho palhaço, com um toque, um esporro, uma lição.
E melhor ainda, se ele me dissesse que tá tudo bem.

