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“Glamour datado”
22 de Janeiro de 2011

“Glamour datado”

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Por Ligia Fascioni 22 de Janeiro de 2011 | Atualizado 03 de Dezembro de 2021
É sempre assim; em festas ou reuniões, alguém me apresenta como engenheira e algumas pessoas do grupo logo murmuram “nossa, ela deve ser muito inteligente“. Já aconteceu na sala de aula de um MBA, onde fiz uma breve apresentação de meu currÃÂculo e uma estudante murmurar “nossa, estou me sentindo tão burra…“.
Pois é, fui conversar com a “burra†na hora do intervalo e saàde lá me achando um fóssil de lesma com QI reduzido. É que, papo vai, papo vem, a tal aluna me contou que havia se casado com um libanês, foi morar no LÃÂbano e, pasmem, aprendeu árabe SOZINHA lendo jornal!!! Só para vocês se orientarem para o tamanho do feito, árabe é aquela lÃÂngua que, escrita, parece um mar revolto com ondinhas rebeldes; de vez em quando saltam alguns pinguinhos. Pois essa moça foi trabalhar com a sogra na loja e aprendeu a ler, falar e escrever isso, depois de adulta, e sozinha! Não é espanhol, italiano, inglês ou alemão: é árabe! Se ela não é um gênio, não sei mais o que pode ser…
Essa distorção do conceito de inteligência acontece, infelizmente, com bastante frequência, porque os séculos XIX e XX, impulsionados pela revolução industrial, trataram de supervalorizar o lado esquerdo do cérebro (lado racional, lógico, sequencial, analista; o dos números) em detrimento do lado direito (o lado emocional, simbólico, simultâneo, sintético; o das artes). Inteligente era quem não tinha medo dos números e sÃÂmbolos matemáticos e brilhante era quem ficava perfeitamente à vontade com eles. Genial era quem os tornava seus escravos.
Peça para qualquer um na rua descrever alguém inteligente. Ela vai dizer que a pessoa mexe com números. Ou que entende de fÃÂsica. Ou sabe programar computadores. Ninguém se lembra da complexidade que é escrever um bom romance, decorar e interpretar uma peça de teatro, reconstruir um nariz, desenhar histórias em quadrinhos ou costurar uma roupa cheia de recortes.
Sinto um constrangimento muito grande quando estou cercada de pessoas interessantÃÂssimas e competentes, que às vezes dominam várias lÃÂnguas e alguém me chama de inteligente só porque sou engenheira. Não vou enganar ninguém; é claro que faz muito bem para o ego. O problema é que fico me achando uma fraude. Incomoda, principalmente se você estiver ao lado de uma jornalista daquelas que sabe fazer esculturas com palavras ou um músico que usa as notas musicais para hipnotizar.
A boa notÃÂcia é que trocamos de século faz pouco tempo, e, aos poucos, as coisas estão mudando. Associar automaticamente genialidade com matemática está saindo de moda; as pessoas estão descobrindo que, para ser realmente brilhante, é preciso desenvolver os dois lados de maneira equilibrada e muito acima da média. Aquele estereótipo de nerd distraÃÂdo está ficando datado, muito século XX.
Vai chegar o dia em que, para considerar alguém muito inteligente, será preciso bem mais que uma apresentação apressada ou uma olhada no seu currÃÂculo. Será preciso talento. Aàteremos inaugurado o século XXI.
LÃÂgia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

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