Feliz minuto 1
07 de Janeiro de 2013

Feliz minuto 1

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Reflexões na entrada do Ano Novo.
Tenho claro na memória as poucas vezes em que chorei depois de adulto, quase sempre em situações ligadas à morte, por quem, aliás, sempre tive muito respeito e reverência. A partida de pais, parentes e amigos me comoveu às lagrimas. Mas agora é diferente. A notícia de um câncer em minhas entranhas, mais um mês em hospital para extirpá-lo, foram suficientes para demolir as barreiras internas e me fragilizar emocionalmente. Agora qualquer coisa que me emocione, uma música, um filme, um abraço mais apertado, uma referência comovente pode me fazer chorar. Não sei se com isso tenha ficado mais fraco ou, quem sabe, mais forte por enfrentar, tentando não me envergonhar, a aparente fragilidade, a sensibilidade exacerbada.

O fato é que, por estar sensível assim, este réveillon, entre abraços e votos de saúde, tinha tudo para me fazer verter lágrimas. Mas, para minha surpresa, não aconteceu. Tranquilo em casa com minha mulher, assistindo as comemorações pela televisão, percebi as razões para essa aparente indiferença.

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A verdade é que as espetaculares queimas de fogos são para mim – ressalto bem, para mim, um sentimento pessoal – são como show do Roberto Carlos, Globo Repórter, desfile de escolas de samba, sempre a mesma coisa. As mesmas entrevistas, os gritinhos histéricos, a alegria de quem está num lugar qualquer fora de casa e considera a maior alegria do mundo. Sorte deles que pensam e sentem assim.

O fatiamento do tempo em frações de segundos para, por exemplo, definir o atleta que chegou na frente, até as eras que medem a vida do planeta, significa uma enorme comodidade para nós. Se não fosse assim, já imaginou os cálculos complicadíssimos que teríamos que fazer para dizer a nossa idade? Nessa perspectiva, o novo ano é só um milimétrico avançar do ponteiro dos segundos, depois do quê tudo vai continuar exatamente como estava. Mas é a tradição e, muito mais do que isso, a necessidade que todos temos de recarregar nossas esperanças, que fazem com que estouremos champanhe, nos abracemos e desejemos uns aos outros sempre as mesmas coisas – prosperidade, saúde, dinheiro, alegria, coisas assim boas. E ficamos sinceramente esperando que os desejos se concretizem, já que estamos começando a viver um ano novinho, que vai demorar 365 dias e mais algumas horas para dar lugar ao próximo, que vamos festejar da mesma forma.

É assim, e que seja assim, não serei eu a desprezar a tradição, mas creio que foi por causa dessa racionalização que não chorei. Sei la. Vou esperar a chegada de 2014 para confirmar.
Mas nesse meio tempo desejo a você que está me lendo, tudo aquilo que mencionei ali em cima. Feliz 2013. Inteirinho, segundo a segundo.

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