A espingarda torta
04 de Janeiro de 2013

A espingarda torta

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Um dos presentes que a vida me deu foi a origem camponesa do meu pai.

Mas não vou fazer a linha “nóis é umirde, nóis é caipira”, não é meu gênero.

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O que importa aqui, é que com dez, onze anos, tinha a chance de viajar lá pra “Dios me libre” no Paraguai e conviver com meus primos e tios, com pé no barro, cavalo sem sela, água de poço e zero de frescura.

Meu tio Anibal me ensinou a caçar passarinho. Aliás, ele me desensinou. Regra número 1: o que você mata, você limpa e come. Armas disponíveis: Espingarda de chumbinho enferrujada e com o cano totalmente torto. Vantagem toda do lado emplumado. Não preciso dizer que lá na fazenda do interior paraguaio, passarinho não canta. Dá risada.

Horas dentro do mato, convivendo com meu fracasso e com o deboche da passarinhada, que FAZIA POSE para os meus tiros, nada disso importava. Bom era estar ali.

Num dos retornos dessas grandes expedições, caminhando pela campina, remoendo minha enésima caçada sem presas, eis que lá longe, uma revoada de quero-queros desperta meu instinto assassino, eu puxo a espingardinha e sem olhar, sem mirar e sem querer, PAU, bala no ar e quero-quero no chão, a uns 200 metros de distância. Improvável.

Essa estorinha apareceu porque nesses dias de feriados, nas manhãs preguiçosas, acabo espiando os programas matutinos de TV aberta (casa de veraneio é isso…) e entre Anas Marias, Fátimas, Chaves e Pica-Paus, percebi uma coisa.

Todo mundo do nosso meio sabe que as audiências de TV nas manhãs são proporcionalmente pequenas.

Então a opção têm sido ou um jornalismo mesclado com serviço, tele-compras, cultos religiosos, programas com viés feminino ou programas de desenhos animados “pós-blonde fairies”. Baixo custo para compensar o baixo faturamento, ou locar o horário para uma operação self-liquidated, como venda direta de produtos ou da salvação eterna.

Em meio a esse cenário, tenho lido comentários sobre a baixa audiência do programa de Fátima Bernardes e se teria feito ela uma opção profissional equivocada ao deixar a consagrada bancada do Jornal Nacional.

Aí é que entra a espingarda torta.

Quero começar a acreditar que as audiências televisivas matinais apesar de pequenas, com algum ajuste, podem ser extremamente segmentadas.
A Ana Maria Braga, com alguma boa vontade, é um símile da Martha Stewart. Receitas, prendas, a amigona que sabe os segredos de uma casa legal.
E a Fátima? Oprah Winfrey! A antena do sentimento popular, sabe ouvir, mais do que falar.

Uau, dois dos maiores faturamentos da TV americana, em formato brazuca.

Ambas, Ana e Fátima, podem se tornar franchises com ampla penetração horizontal em segmentos específicos de audiência, a exemplo do que já são há algum tempo, Martha e Oprah.

Resultado, audiência em nichos abre um potencial gigante de licenciamentos, revistas, livros, interatividade digital, ações sociais, eventos, etc, etc, etc.

Logo, horários da grade com baixo faturamento se tornam minas de ouro.

Pode ainda ser uma lição valiosa para emissoras regionais, que podem encontrar saídas criativas em sua programação, em parcerias inteligentes com produtores independentes, explorando e expandindo aspectos locais da cultura, economia, natureza e empreendedorismo.

Se for uma estratégia, é brilhante.

Se não, é igualzinho ao meu tiro no quero-quero. Não mirou, mas acertou.

 

Em tempo, antes que a turma que é contra caçadas, armas tortas e assassinato de quero-quero queira me trucidar, devo confessar que consumido de remorso, fui atrás da ave, vi que só tinha acertado na asa, cuidei do bicho, não o comi e quando ficou bom, saiu voando, igualzinho filme da sessão da tarde.

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