Enfim, um tratamento digno para a cachaça catarinense
12 de Dezembro de 2012

Enfim, um tratamento digno para a cachaça catarinense

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1.    Década de 70. Além de trabalhar na Norton e de lecionar na ESPM, eu ia, um ou duas vezes por semana, a Moji das Cruzes, cumprir meu deve de professor no Curso de Comunicação da Faculdade Brás Cubas. Seis da tarde pegava o carro e me mandava pra lá. Quinze pras sete estava lá. Às dez encerrava a aula, atravessava s a rua, tomava um cafezinho e me mandava de volta.

Numa dessas estava no bar quando um sujeito, completamente bêbado, entrou e ordenou:

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“Me dá uma Tatuzinho!”
O garçom pegou a garrafa, o copo, e quando ia servir, o
bêbado interrompeu:
“Essa não, eu quero Tatuzinho. Ta-tu-zi-nho!”
Com a paciência que Deus lhe deu, o garçom tentou
explicar:
“Essa é Tatuzinho, ta escrito aqui, ó.”
“Não é”, interrompeu o bêbado. “O rótulo é outro. Essa é
falsa.”
“Agora ela vem com rótulo novo, você não viu a
Propaganda no rádio e na televisão?”
“Não vi, mas se você está dizendo é capaz de ser verdade.
Bota um pouquinho aí, eu quero experimentar.”
O garçom obedeceu. O bêbado engoliu, de uma só vez,
o que estava no copo. Engoliu e cuspiu, louco da vida:
“Você ta pensando que eu sou bobo? Essa não é
Tatuzinho. Tem outro gosto.”
Disse isso e foi embora, furioso. Como se bêbado
conseguisse reconhecer o sabor da cachaça.

2.    Há alguns anos realizei um estudo sobre o mercado da cachaça. Fiz isso porque tinha observado que a cachaça mineira estava ganhando rapidamente a preferência do consumidor. E como apreciador da marvada, sempre achei que a catarinense é, geralmente, mais saborosa do que a produzida em Minas Gerais.

O resultado do meu estudo mostrou, claramente, duas coisas: que o produto mineiro avançava em Santa Catarina; e que se os produtores daqui fizessem um esforço de marketing e comunicação – como os mineiros faziam, naquele momento – protegeriam seu território e avançariam no Brasil.

3.    Com esse resultado em mãos elaborei uma estratégia de marketing e comecei a procurar alguém pra conversar. Havia uma pessoa que, disseram-me, liderava os produtores.

Várias vezes tentei, inutilmente, marcar um encontro com ele. Um dia, por acaso, em consegui. Aconteceu na Fenaostra.

Cheguei, apresentei-me, e como ele não demonstrou o menor interesse de conversar comigo, falei sobre o objetivo do meu projeto, e citei um argumento que, acreditava, seria definitivo naquele momento:

“Os mineiros já estão por aqui. Em Florianópolis mesmo acaba de ser inaugurado um empório para vender cachaça de lá.”

Mas definitivo mesmo pra me fazer desistir foi o argumento dele:

“Que bom. Me dá o endereço que vou vender umas garrafas pra eles.”

4.    Esse trololó todo para dizer da alegria que senti ao encontrar, no Iguatemi, um quiosque da cachaça Fogo, produzida no interior de Santa Catarina.

Ali eu vi, finalmente, um trabalho profissional nessa área. Embalagem diferenciada, produtos especializados, e – claro que testei! – saborosos.

Coisa de gente grande. Tomara que sirva de exemplo.

Se continuar nesse caminho, já, já, Fogo estará para todos nós, apreciadores da marvada, o que Tatuzinho era para aquele cara que encontrei em Mogi das Cruzes.

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