Moda, consumo, comportamento e autoimagem são temas que permeiam nosso cotidiano e que se entrelaçam, historicamente, de maneira curiosa. Tem funcionado assim: para o bem da autoimagem consome-se o que dita a moda, adotando o comportamento socialmente esperado. E para garantir que sempre haja um novo modelo (a princípio, estético) a ser alcançado, algum desejo a ser satisfeito, a moda muda alternando na gangorra, estilos e cores.
Nesse processo, que já recebeu a pecha de “tirania da moda”, o que teoricamente se faz para se sentir bem perante os olhares alheios é, curiosamente, não afirmar o próprio gosto e consumir incessantemente, além do necessário.
Hoje, contudo, fatores como a globalização econômica e a competitividade vêm acelerando de tal forma esse processo e fazendo surgir, como se não fora um contrassenso, uma moda que aceita tudo: sapatos de saltos finos e grossos, roupas de todas as cores, vestidos curtíssimos e longos, babados, rendas, brilhos para qualquer hora do dia.
Seria esse o fim da tirania? Uma moda democrática, para todos os gostos e tribos? Ou um sinal desesperador de que chegamos a um nível tão elevado de consumo que já não há o que satisfaça as angústias que a afirmação pela aparência prometia suplantar?
Seja pelo fastio ou pela consciência da insustentabilidade da proposta (esperamos que este seja o motivo preponderante), parece que estar travestido conforme a moda já não é tão importante.
Surge uma nova corrente de comportamento social que segue pela via do consumo minimalista, pela cultura do desapego que vigora num espaço de economia não material. É nesse ambiente que crescem, não por acaso, o consumo de boas ideias, os debates críticos, soluções criativas para promover o bem estar coletivo. Um ambiente positivo de afirmação humana, receptivo, sensível e colaborativo, onde as atitudes e comportamentos não se fazem para o olhar alheio mas para atender concretamente os outros conviventes.
Seja apenas outro tipo de modismo ou uma atitude consciente, essa tendência, embora insuficiente para, por si só, conter os efeitos do consumismo e manter a resiliência ecossistêmica, já é uma boa nova.
Pode ser inócuo para fins ecológicos, pode ser uma febre sazonal e passar com a próxima estação. Mas também pode, e é desejável que seja, uma mudança intencional e orientada, transformando práticas e sentidos individuais e coletivos – protegendo e construindo uma forma de viver mais sustentável.
