Em algumas poucas décadas de intercomunicação global (ou da existência de meios tecnológicos para tanto), constata-se que a experiência de uma aproximação entre as diferenças impacta inevitavelmente nas utopias seculares sobre a governança e a paz universal.
Durante um longo período, até meados do século XX, pensadores e políticos do ocidente se desdobraram em projetar e tecer argumentos no intuito de racionalizar os elementos da paz, a ser implementada diplomaticamente, segundo seu ideário.
Mas o que acontece quando a realidade/virtualidade aproxima as diferentes culturas, é que percebemos que não é tão simples assim. Que, apesar dos jovens de todo o mundo curtirem rock, há muitas outras referências e valores em questão! Embora as multinacionais se façam presentes nos pontos mais longínquos do planeta, a oferta de seus produtos é mero apanágio de igualdade.
A atitude pretensiosa de impor uma cultura hegemônica tem se mostrado gravemente falha e arriscada, além de prejudicial à harmonia ecológica e ao potencial humano de liberdade existencial. Precisamos das diferenças para o surgimento do novo!
A paz não é equivalente de “mesmo”. Ela resulta de uma articulação tal como os temperos de um alimento que fazemos, da genialidade do artista que conjuga técnica e emoção no seu trabalho, da partilha generosa da poesia que debruça seu olhar sobre a vida e nos oferece suas miragens. A paz não é um projeto em linha reta.
A intenção de fazer vigorar uma monocultura é uma proposta limitada e cega, e as reações são proporcionalmente agressivas e contraproducentes ao projeto de paz. Ela é contrária à vida, que é necessariamente bio e culturalmente diversa.
A paz precisa da comunicação, sim. Mas de uma outra forma de comunicar, que extrapole as formalidades e os lugares-comuns dos governos e da propaganda promotora do consumo. A paz na diferença requer uma comunicação profunda, respeitosa e aberta às trocas.
A paz acontece na aproximação, quando o respeito e o afeto se sobrepõem aos costumes e se formam verdadeiros elos de confiança, capazes de superar as discórdias. A paz se faz com o coração desarmado, não é fruto exclusivo da razão.
Todos somos responsáveis pela paz.
