ARTIGO |  Inventem outra história – por Laudelino José Sardá
01 de Abril de 2019

ARTIGO | Inventem outra história – por Laudelino José Sardá

Publicidade

por Laudelino José Sardá*

Os meus colegas de O ESTADO devem ter lembranças daquele galego magro, agente da Polícia Federal, que todos os dias entrava na redação munido de uma prancheta, determinando censuras a informações. Lembro-me de duas: “Fica proibida a divulgação do surto de meningite no Rio de Janeiro”. A outra eu não saberia especificar as estrofes, mas eram duas da música “A Banda”, de Chico Buarque. Prevaleciam as censuras sobre prisões e torturas.

Publicidade

Em 1976, o editor nacional do Jornal do Brasil pautou-me para uma matéria sobre “o conto de fada da pesca”. Referia-se à corrupção no setor pesqueiro, em que empresários pegavam dinheiro do governo, construíam estruturas de fábricas, ao longo do litoral brasileiro, e simplesmente abandonavam-nas, ficando, é claro, com o dinheiro. No litoral catarinense foram, no mínimo, 15 golpes. Cinco dias depois da publicação da matéria, Juarez Bahia me liga pedindo para eu me esconder, sob pena de ser preso pela Polícia Federal, por recomendação da Marinha.

No final dos anos 60, o então ministro dos Transportes, Mário Andreazza, veio a Santa Catarina vistoriar as obras de pavimentação da BR-101. Sabendo de denúncias de corrupção, acompanhei o ministro da entrada do restaurante Catira, em Palhoça, acompanhado, ele, do governador Ivo Silveira. Bem na porta do restaurante indaguei-lhe: “ministro, o senhor tomou conhecimento de possíveis irregularidades nas obras da BR-101?” Ele sorriu e, com a sua mão pesada, simulou um cumprimento batendo em minhas costas, jogando-me contra mesas e cadeiras. As gargalhadas soaram. Todo mundo já ajeitado em suas mesas, fui por trás e voltei a indagar o ministro. E ele disse: “És insistente, guri. Mas estou sabendo e já estamos investigando”. Claro, foi manchete do Diário Catarinense, que, na época, pertencia aos Diários Associados, de Assis Chateaubriand.

Tirando Andreazza e alguns outros ministros gentis com jornalistas, como Rubem Ludwig, Jarbas Passarinho, a ditadura foi extremamente severa. O jornal O Estado de S. Paulo inseria poemas de Luis de Camões e receitas de bolo nos espaços censurados pela Polícia Federal. 

Certa noite, perto da meia-noite, o chefe da oficina de O ESTADO me liga: “a polícia esteve aqui e arrancou uma matéria da página (estava em processo de fotolitagem). “Mas como você foi permitir isso?” Indaguei. E ele foi verdadeiramente irônico: “querias que eu prendesse ele no banheiro?”. Pedi que deixasse o espaço em branco. No dia seguinte, a PF convocou a direção do jornal para dar explicação. E muitos leitores ligaram questionando o vazio da página.

Além disso, fomos impedidos de divulgar denúncias de torturas e assassinatos políticos. E qualquer informação que exigisse explicação do governo era proibida. O fechamento do Congresso Nacional ganhou manchetes, sim, mas a partir daí os tempos ficaram bem mais nebulosos; a censura tomou conta de todas as áreas, principalmente da imprensa, teatro, música e cinema. Prisão e tortura faziam parte dos roteiros da ditadura e ficávamos sabendo pelos circuitos internos da imprensa. 

E o governo de Bolsonaro acha que não houve ditadura. Se alegarem que Jango Goulart foi um presidente à toa, irresponsável, até concordo. Ele era um fazendeiro milionário, com terras no Uruguai e Rio Grande do Sul. Pra comunista, com certeza, não servia. E há controvérsias até no então MDB, partido da oposição, cujo presidente, Ulisses Guimarães e Tancredo Neves hipotecaram, em 1964, apoio aos militares. Aliás, Tancredo sempre foi golpista. Basta dizer que ele liderou o movimento pelo parlamentarismo, em 1962, tornando-se o primeiro ministro. Depois ajudou a derrubar Jango Goulart. Foi contra a proposta das “Diretas-já”, emenda constitucional de Dante de Oliveira, e tornou-se candidato do MDB a presidente da República, “aprovado” pelo Congresso Nacional. Morreu antes e nos deixou como herança José Sarney, que sempre foi da Arena e pousou no MDB para ser vice de Tancredo nas indiretas, com apoio de Ulisses. Não havia um movimento sério de oposição, mas um oportunismo político-fisiológico, como bem atesta o nosso senador Jaison Barreto, que lutou pelas diretas e rompeu com o MDB.

Bolsonaro tem o direito de revelar as verdades da república recheada de perversidades, mas não pode querer impor uma mentira: vivemos sim uma ditadura violenta.
 

* Laudelino José Sardá | Atuou durante 30 anos em jornais, na televisão e no rádio. Foi Assessor de Comunicação da UFSC. Atualmente leciona e dirige a Assessoria de Comunicação e Marketing da UNISUL. É graduado em Letras e Comunicação, Especialista em Jornalismo Científico e Doutor em Engenharia da Produção na área de Gestão da Comunicação nas Organizações.

Publicidade
WhatsApp
Junte-se a nós no WhatsApp para ficar por dentro das últimas novidades! Entre no grupo

Ao entrar neste grupo do WhatsApp, você concorda com os termos e política de privacidade aplicáveis.

    Newsletter