por *Giovanni Sartori
22 de janeiro de 2019, terça-feira, Grand Palais, Paris. Mais um grandioso desfile da imponente e relevante Chanel estava encerrando. Como sempre, de tirar o fôlego. Mal sabiam os convidados que algo maior estava prestes a acontecer e que, aí sim, o ar desapareceria por completo. Após a final line, Karl Lagerfeld não apareceu. O oxigênio global, por dois segundos, tinha sido exterminado. Momentos após o desfile, em nota aos convidados, Karl avisou que acordou cansado. Eram os sinais que o mundo da moda temia: ele nunca mais encerrou um desfile e, em 19 de fevereiro, foi ao encontro de Coco Chanel.
Em 22 de janeiro de 2002, após 200 desfiles e 70 coleções, incluindo a emblemática coleção Trapézio, o desejado smoking feminino e os conceitos de prêt-à-porter, Yves Saint Laurent decidiu se afastar da YSL, vindo a falecer em 1º de junho de 2008. No mesmo ano que Valentino saiu da Maison, que leva seu nome, Julia Roberts nunca mais foi vista chegando ao Oscar em um Red Valentino. Não dele, pelo menos.
Dior sem Christian, Chanel sem Chanel e Karl, YSL sem Yves, Kenzo sem Kenzo. Por aqui não foi diferente: Marcelo Sommer, em 2004, vendeu sua marca. Em 2008, Amir Slama, que deu vida à Rosa Chá, vendeu sua marca. E, no ano seguinte, Tufi Duek – alma da Triton, da iconográfica Forum e da própria Tufi Duek – deixou a direção criativa de todas as marcas. Em 2016, Alexandre Herchcovitch abdicou de sua marca, já em poder de outro grupo de investidores. Hoje está à frente da À La Garçonne, com seu esposo Fábio Souza. A lista seria interminável, mas o ponto segue sendo o mesmo: já que as marcas ficaram sem seus criadores, sem a sua alma, então de quem estamos consumindo?
Faz sentido – ou deveria fazer – consumir marcas que, em uma tentativa maluca de manter consumidores, cria itens nas suas coleções apenas para atender a velocidade do varejo e da indústria da cópia com peças sem identidade alguma… Não compreendo um tênis na Valentino, uma mochila na Chanel ou os milhares de tênis da Osklen copiados por até quem não fabrica calçados. Eu entendo os motivos para estarem ali, mas não os vejo correspondendo aos drives dessas marcas. E não tenho nada contra, que fique bem claro.
Meu ponto é o propósito. A alma. Teria ela sido vendida com as marcas? Esses tempos escutei um depoimento de Danuza Leão e me identifiquei: “Em tempos que todos produzem o mesmo item e todos se parecem com todos, eu prefiro usar jeans e camiseta branca. Visto-me de mim mesma. Não faz sentido usar marcas de criadores que não estão mais aqui.”
Tenho de concordar. Ao longo dos meus 21 anos dedicados a criar e planejar conceitos criativos para marcas de moda, aprendi que alma não se copia. Mais do que isso: não existe ideia maior que se sobreponha aos conceitos criativos de uma coleção. Entendi toda a cadeia da moda e o processo que envolve para se colocar uma coleção de pé. O esforço de venda e toda a dinâmica para que isso tudo seja visto como um grande negócio. A identidade, os códigos de imagens, as cores, os tecidos, os estilos de estampas nascem de muito trabalho e de um olhar especial. E é desse olhar que surgem os produtos ícones que darão identidade e estilo ao concept da marca. Desenhar fora desses pilares é o que mais tenho visto. E é aí que as coisas se perdem.
Não precisa ser um estudioso de tendências e movimentos de comportamentos para se constatar isso. Basta uma rodada em um shopping e observar as vitrines. Mesmas estampas, mesmos casacos, bolsas e suas cópias realistas e sapatos – aaaaaah, os sapatos, pobre Miuccia Prada, a preferida quando a pauta é cópia.
Meu papel como diretor criativo é justamente tentar ajudar as marcas a encontrarem suas verdades, seus produtos-alma e transformar todos esses códigos subliminares em conceito, imagem e identidade. E iniciar um processo de blindagem para se diferenciar e prosperar nessa imensidão de iguais. Tenho mantido meu radar conectado em marcas originais, com propósito e, principalmente, estimulado a economia onde passo e vivo. Tenho optado por novas marcas com desenho proprietário, com modelagem única e com sentido. Acredito que o desenvolvimento da cadeia produtiva local seja um fator relevante para personificar o conceito criativo.
Vejo alma nessas marcas. Espero e trabalho muito para que todas elas possam encontrar sua alma. Se encontrarem. Que também possam dizer o que Valentino disse da cor que leva seu nome, Red Valentino: “O vermelho é fascinante, é vida, sangue da morte, paixão, amor, a cura da infelicidade”.
* Giovanni Sartori é Head of Creativity da BriviaDez. O publicitário é morador da Ilha de Santa Catarina e possui mais de 15 anos de expertise no midset criativo . Ex-professor da moda da ESPM, participou da nacionalização de marcas como Renner, Ramarim, Lança Perfume e o reposicionamento da Havaianas.
