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ARTIGO | Da mão única ao ruído digital: 195 anos de imprensa em Santa Catarina
28 de Julho de 2026

ARTIGO | Da mão única ao ruído digital: 195 anos de imprensa em Santa Catarina

Quase dois séculos após a fundação do primeiro jornal do estado, a missão de informar com responsabilidade permanece como um dos pilares da atividade jornalística

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Imagem produzida com apoio de IA

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por Lúcia Helena Vieira*

Pesquisando sobre a imprensa em Santa Catarina, deparei-me, por óbvio, com o pioneiro O Catharinense, fundado por Jerônimo Coelho há 195 anos, na pequena Vila de Nossa Senhora do Desterro. Até aquele longínquo 28 de julho de 1831, quando O Catharinense circulou pela primeira vez, as informações e comunicados que chegavam à população vinham exclusivamente da Corte Imperial. Era mão única.

Por meio do jornal, Jerônimo Coelho introduziu ideias iluministas e liberais, criando o primeiro espaço de debate público em Santa Catarina. O jornal era ferrenho opositor da monarquia e unia as pessoas em torno de discussões sobre o futuro da região.
Fiquei pensando no impacto que o periódico causou.

Eram notícias, ideias, propostas e opiniões da sociedade para ela mesma. Não acrescentava apenas informação à rotina da província. Provocava movimento. Alterava conversas, expectativas, interesses. Logo passou também a influenciar decisões e se mostrou um instrumento poderoso na seara política.
Para além de tudo isso, o acesso à informação, empoderou as pessoas. Deu outra dimensão ao mundo de cada cidadão, ampliou o seu campo de percepção e, consequentemente, transformou a sociedade.

Enquanto O Catharinense preencheu um vazio absoluto de comunicação, o jornalismo de hoje, quase dois séculos depois, luta para ser ouvido no ruído digital. O excesso de canais de informação acabou gerando o efeito oposto. Em vez de unificar o debate, a internet facilitou a criação de bolhas, nas quais as pessoas buscam apenas informações que confirmem suas próprias crenças, alimentando a polarização.

Do ponto de vista econômico, o desafio, em 1831, era material e logístico: levantar os recursos para comprar o prelo de ferro, trazer a máquina de navio e imprimir as páginas manualmente na própria casa do fundador.
 
O desafio atual é existencial e digital. Com a migração da publicidade para as grandes plataformas de tecnologia, os jornais perderam sua principal fonte de renda histórica, forçando o setor a se reinventar.

Apesar de mundos tão diversos, o papel fundamental do jornalismo permanece o mesmo através dos tempos. Assim como O Catharinense nasceu para combater o autoritarismo e a desinformação do período imperial por meio de fatos e ideias estruturadas, o bom jornalismo de hoje oferece ao leitor filtro, curadoria e checagem em um mundo saturado de notícias falsas.

Aos 195 anos, a imprensa catarinense celebra a permanência da missão de informar com responsabilidade, sustentar o debate público, respeitar a pluralidade, reconhecer diferenças e manter vivo o direito da sociedade de formar sua própria opinião.


*Lúcia Helena
Vieira é  Jornalista e Consultora | Vice-presidente da Associação Catarinense de Imprensa

 

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