A Academia, o mercado e o Papa
21 de Fevereiro de 2013

A Academia, o mercado e o Papa

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1. O mineiro, observando o engenheiro com um teodolito não se agüentou:

– Dotô, pra que serve esse treco aí ?

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– Vamos passar uma estrada por aqui. Estou fazendo as medições.

– E precisa desse negócio pra fazê a istrada?

– Sim, precisa. Por que? vocês não usam isso pra fazer estradas?

– Ah não, sô. Aqui quando a gente qué fazê uma istrada, nóis sorta um burro e vai seguino ele. Por onde o bicho passá, é o mió caminho pra se fazê a istrada…

– Ahh, que interessante, respondeu o engenheiro. E se vocês não tiverem o burro?

– Bem, daí nóis chama um ingenhêro memo…

2.    Jornalistas em geral, entendidos nessas coisas do Vaticano têm, com uma ou outra exceção, discordado em vários pontos de suas análises, mas concordado em uma coisa: o Papa ainda atual, Bento XVI, é um grande intelectual que não soube traduzir suas ideias para uma linguagem capaz de ser digerida pelos fieis.

Lembro-me, sempre que os leio, das críticas que tenho feito sobre a relação entre a academia, especialmente a que hospeda os cursos de comunicação, e o mercado.

3.    Minhas críticas têm sido centradas no fato de que essa relação distante acaba se refletindo na formação do estudante, que em geral, quando termina o curso,  toma um choque quando começa a trabalhar e encontra um mundo que pouco ou nada tem a ver com aquele que lhe foi apresentado quando estudante.

Desde a década de setenta, quando me travesti de professor na então Faculdade Objetivo, hoje Unip e na Braz Cubas, de Mogi das Cruzes, venho insistindo inutilmente nisso.

Desde aquela época a recíproca é mútua. Lembro-me, por exemplo, que revoltado com um artigo assinado por famoso colunista publicitário paulista, que chamou os professores de comunicação que atuam fora do eixo S.Paulo-Rio de ignorantes, fui ao IV Congresso de Brasileiro Propaganda e protestei publicamente.

O jornalista se desculpou, mas a merda já estava feita.

4.    A recíproca é verdadeira.

Aqui mesmo, na Grande Florianópolis, enquanto coordenador de um curso de comunicação, achei que poderia colocar em prática minha já velha idéia de aproximar mercado e academia.

Criei, então, um grupo formado por líderes do mercado catarinense e pelos professores do Curso. A intenção era de
que eles se reunissem uma vez por mês para trocar ideias e experiências.

Os líderes do mercado foram a todas as reuniões. Os professores, sem exceção, faltaram a todas. Após o quarto
encontro, desiludido, dissolvi o grupo.

5.    Segunda-feira, dia 18  deste fevereiro,a Folha de S. Paulo publicou entrevista em que o teólogo e  jesuíta americano Thomas Reese analisa a figura do papa atual e as características do seu sucessor.

O próprio jornal faz três destaques das declarações feitas pelo entrevistado, que fazem lembrar o problema das relações entre academia e o mercado:

a)    “Novo papa terá de ser um melhor comunicador.”

b)    Bento XVI é muito inteligente, é um teólogo, um intelectual. A pergunta é se queremos outro papa assim, ou se queremos alguém mais pragmático, alguém que tenha sido um diplomata, ou um pastor.”

c)    “Um papa tem que querer ser desafiado a portas fechadas, para que não cometa erros. Se ele estiver com o rosto sujo e for aparecer diante de câmeras, alguém lhe dirá para limpar o  rosto, não? Se ele vai dizer algo é o mesmo.”

6.    É o que acadêmicos e profissionais do mercado deviam fazer. De olho no olho, trocar ideias. Então, compreenderiam uns os problemas dos outros. Perceberiam,  que às vezes o teodolito é indispensável. E que de vez em quando basta seguir o caminho do boi.

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