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“Abelhinha.”
07 de Março de 2011

“Abelhinha.”

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Por Ligia Fascioni 07 de Março de 2011 | Atualizado 03 de Dezembro de 2021

Dia 8 de março é o dia da mulher. E é também o dia do aniversário da minha diarista.

A Vâni é uma das mulheres mais extraordinárias que já tive a honra de conhecer na vida. Temos praticamente a mesma idade (44), mas vidas e experiências muito distintas; fico fascinada com a força que ela tem. Penso que eu, você e a torcida do Flamengo iríamos comer poeira se tivéssemos que enfrentar as feras que essa mulher detona.

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Nascida no oeste de Santa Catarina, falava um dialeto italiano até os 17 anos, quando veio para a capital aprender a ler e a falar português. Foi um início bem complicado – como conseguir emprego sem falar a língua (nem entender)? Mas ela não se fez de rogada; sofreu muito, mas conseguiu seu lugar sob esse sol manezinho.

Há 12 anos, essa moça luta contra um câncer na cabeça que já se imiscuiu em outras partes de seu corpo algumas vezes, e ela sempre ganha; não raro, faz quimoterapia e faxina na mesma semana. Ela só tem metade de um dos pulmões funcionando, mas está sempre de alto astral, fazendo planos e rindo.

Empreendedora obstinada, é a única pessoa que conheço que conseguiu trabalhar e juntar dinheiro para comprar um apartamento à vista, fruto de muitas faxinas, depilação, comida para festas e venda de cosméticos. Generosa, ainda ajuda a criar os 3 sobrinhos que praticamente moram com ela, uma vez que a mãe deles não é tão boa administradora. A Vâni os chama carinhosamente de “meus pintinhos”.

Fui procurar alguma coisa para dar de presente para essa formiga atômica tão querida, mas estava um pouco difícil. Perfumes e cosméticos, nem pensar. Há anos ela figura no topo do ranking entre as maiores vendedoras do Brasil tanto da Natura como da Avon (ela faz os pedidos pela internet, essa danada inteligente). Já ganhou prêmios diversos, inclusive viagens, que adora.

Mas tem outra coisa que faz os olhos dessa menina brilharem: os livros. Todo mês ela separa R$ 100 para comprá-los, e é bem eclética. Encantou-se com a série Crepúsculo (que ainda não li), mas também adorou 1808 e 1922, sobre história do Brasil. É das poucas pessoas que tem acesso livre à minha estante e pode levar o que quiser (e olha que sou ciumenta; já perdi alguns dos melhores livros emprestando-os para gente de memória fraca).

Pois ontem fui a uma livraria para tentar descobrir o que ela gostaria. Entre outros volumes, peguei nas mãos “Pequena abelha”, de Chris Cleave. Conta a história de duas mulheres que se encontram em uma situação muito complicada, numa praia da Nigéria, em plena guerra do petróleo. Quando olhei no relógio, já estava na página 71. Aí tive que comprá-lo e ler o resto em casa (desculpe, Vâni, mas é o controle de qualidade).

Se tem um livro adequado para o dia em que se homenageiam as mulheres, é esse aí. As personagens têm medo, mas são fortes e enfrentam coisas aterrorizantes e inimagináveis, com uma dignidade que faz a gente se emocionar. Os fatos nos fazem rever nossos valores e pensar o que faríamos se estivéssemos no lugar de qualquer uma das duas. Com uma guerra pelo petróleo como pano de fundo, história é cheia de acontecimentos que provocam fome pela próxima página. Muito bem escrito, o livro é bordado com aquela ironia fina que amarra o leitor. Acho que a Vâni vai gostar.

Feliz aniversário, minha querida amiga e incansável abelhinha. 

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