A relação entre filho e pai pode ser bastante conflituosa e complexa – afirmação que por certo teria a concordância do impetuoso e um tanto desequilibrado Édipo e do pensativo e sonhador Sigmund Freud. Nem sempre, porém, o convívio termina em tragédia grega ou teoria psiquiátrica.
José Henrique Bortoluci lançou há pouco “O que é meu”, livro curtinho (137 páginas), que pode ser lido como o “acerto de contas” afetuoso e compreensivo do autor com o pai. Caminhoneiro que passou décadas correndo estrada, José Bortoluci, o Didi, foi presença rara em casa durante a maior parte da vida dos filhos.
Agora, envelhecido e desgastado pela rotina dura da boleia, acumula doenças e depende cada vez mais da família e de inúmeros tratamentos invasivos e agressivos. Em vez de rodovias, motores, cargas e descargas, sua rotina – e a da família – é entrar e sair de hospitais, fazer incontáveis exames e buscar respostas para questões insolúveis que habitam o imaginário de um doente de câncer.
Bortoluci, o filho, escreve com carinho e admiração pelo indivíduo um tanto ausente durante sua infância, adolescência e vida adulta, mas que fez o necessário e o possível para ganhar a vida e sustentar a mulher e a criançada da casa. Conta histórias de aventuras em rodovias, de antigas amizades do pai (quase todos mortos de forma precoce) e da formação do homem que transportou riqueza por todo o País no “milagre econômico” e sofreu toda vida com dificuldades financeiras.
“O que é meu” vai além de uma história de família. Bortoluci, o filho, é doutor em sociologia – e ninguém é doutor em sociologia impunemente. A trajetória do pai esbarra e ajuda a explicar a história da sociedade brasileira de décadas passadas e de tempos presentes.
Um trecho: “Os ideais do empreendedorismo não são novidade entre as classes trabalhadoras brasileiras. O ‘sonho de não ter patrão’ sempre andou de mãos dadas com o ‘sonho da casa própria’, e ambos impõem riscos para os trabalhadores: o fantasma da dívida, o flagelo dos juros, a precariedade das redes de proteção social, as sucessivas crises econômicas, a chance real de perder tudo e não ter alternativas”. Entre os caminhoneiros conhecidos de Didi, apenas um prosperou e se tornou proprietário de uma pequena transportadora. A maior aventura empreendedora dele próprio terminou em fracasso.
Bortoluci entende de Brasil e do atoleiro que percorremos em anos recentes. “A devastação política e social que vivemos nos últimos anos tem suas origens nas dobras do autoritarismo brasileiro. A destruição tornou-se a política de Estado, o tosco organiza a estética oficial, a sofisticação das ideias é motivo de perseguição”. Já o pai, apesar do pouco estudo, entende da vida e das coisas básicas que nos afligem a todos. Diante da inevitabilidade dos efeitos do câncer, conclui “O que é meu, só eu posso enfrentar”. Vale para ele e para cada um de nós!
