O medo de morrer é sentimento inevitável – ao menos entre os vivos. Depois de meses e meses de pandemia, quando todos convivemos de perto com a estranha proximidade da indesejada das gentes, é normal carregarmos por aí, como bagagem incômoda em tempos de retomada da normalidade, alguma ansiedade, um ou outro distúrbio alimentar, hábitos etílicos hipertrofiados ou apenas uma irritação difusa, que aflora em situações inexplicáveis.
Norma Bruno, como a imensa maioria, teve medo da peste. Um temor quase paralisante, que a impediu de ler e escrever por meses. Mas ela é artista – e buscou refúgio em outras formas de criação. A opção foi o bordado, uma maneira de exercitar a sensibilidade e, nas suas palavras, “manter uma ligação com o belo”. Passado algum tempo, as coisas voltaram à normalidade – o normal possível dentro da loucura que vivemos todos – e a rotina da escritora foi retomada.
Sorte dos leitores!
A Norma Bruno é uma observadora atenta e uma narradora inspirada. Ela vê as pessoas – e mostra com grande sensibilidade aquilo que é universal em comportamentos individuais, o que é possível principalmente pelo tom de prosa poética que ela usa. A liberdade garantida pela aproximação com a poesia também permite que a autora exercite um ar benevolente e um tanto otimista, disposto a apostar na ternura mesmo diante da brutalidade que nos cerca. Para pessimistas e incrédulos na humanidade, suas crônicas e textos curtos são um respiro.
Hoje (11/05) a Norma Bruno lança um novo livro. Resultado de anotações e escritos da pandemia, Noites Insones e as Entrelinhas da Poesia marca também a estreia da escritora como editora atenta aos detalhes da obra – atenta aos mínimos detalhes mesmo! – e convicta de que a beleza de um livro é complemento essencial à qualidade do texto. Trechos da obra divulgados nas redes sociais mostram que a autora mantém o estilo de livros anteriores e está ainda mais afiada no exercício de depuração – “resumindo” em poucas palavras a essência de sentimentos e fatos que outros autores usam parágrafos ou páginas para descrever. Mais um reflexo da proximidade entre poesia e prosa.
Noites Insones traz ainda uma profissão de fé da autora. “Lanço a ideia de que as mulheres precisam dominar o mundo e dar um jeito no que está aí. Está tudo muito feio”. Vinda de quem tem sensibilidade à flor da pele para o belo, a frase precisa sim ser levada muito a sério.
