Em 1958, nos meus 12 anos, fui testemunha auditiva da Copa do Mundo da Suécia. A seleção vinha de uma imensa frustração que foi a perda do título em 1950 e em 1954, na Hungria, não se esperava muito e, assim mesmo, a seleção chegou as quartas de final, quando fomos eliminados pela anfitriã.
Em 1958, a seleção classifica-se para a Copa enfrentando, em dois jogos, a seleção do Peru; o segundo jogo, no Maracanã, foi decidido com gol de Didi, que a imprensa simbolizou de “folha seca” tal a curva aplicada na bola. As dificuldades encontradas nos jogos contra o Peru fizeram com que a seleção saísse do Brasil com alto grau de descrédito.
Durante a Copa o rádio foi o grande companheiro dos brasileiros. A cada transmissão a alegria tomava conta do país e, o mundo descobria um grupo de jogadores excepcionais. Áustria, Inglaterra, União Soviética, País de Gales, França e Suécia foram caindo um a um frente ao “escrete canarinho”; mas, teve um jogo que colocou o sistema cardíaco dos brasileiros em cheque; foi o jogo contra o País de Gales. Esta foi a primeira Copa em que os galeses participaram e assistiram o nascer de um gênio com pés de anjo.
Nascia um garoto de 17 anos, negro, com habilidades excepcionais com a bola e, com um apelido que marcaria a história do futebol: Pelé! Moleque franzino, negro, de altura mediana, mas com capacidades físicas inusitadas para a idade e, dono de uma técnica inigualável. O jogo estava muito difícil, a defesa dos galeses se impunha ao ataque brasileiro, quando Pelé recebe a bola na pequena área e, surpreendentemente, dá um balãozinho no defensor galês e, sem deixar a bola tocar o solo acerta um chute e faz o primeiro e único gol do jogo. Como diria depois, Nelson Rodrigues, o moleque tirou para dançar o defensor com saúde de vaca premiada.
Mas, muito mais do que jogador, Pelé foi um homem que marcou o mundo por gestos que, agora, em função de sua morte começam a se tornar público. A humildade sempre caracterizou sua conduta dentro e fora dos gramados; nunca participou de campanhas publicitárias que enaltecessem cigarros ou bebidas. Mas, foi muito criticado por não reconhecer a existência de uma filha fora do casamento obrigando a justiça determinar o reconhecimento da paternidade. Hoje, através de seus netos, sabe-se que o assunto foi pacificado.
Durante a transmissão pela TV e pelos depoimentos de pessoas comuns e autoridades tomamos conhecimento de histórias comoventes. Como desconhecer o que disse o neto de Mário Américo (massagista da seleção em 1958 e grande amigo de Pelé), quando relata que seu sonho era fazer Fisioterapia, mas que não tinha dinheiro para pagar a faculdade e, Pelé, ao saber do fato, bancou os estudos do hoje agradecido cidadão. Outro depoimento comovente foi o do Cônsul da Costa do Marfim, que afirmou a alforria dos jogadores negros pós Pelé e que a África estava em prantos. Também o do embaixador da Nigéria quando aborda o fato da trégua na guerra civil provocado por Pelé e o Santos, pois o povo queria assistir o jogo.
Hora de reconhecer e prestar homenagens a quem fez a diferença!
