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Coluna Leitura | Três dicas de livros sobre ciência e saúde que viraram apenas uma
29 de Dezembro de 2022

Coluna Leitura | Três dicas de livros sobre ciência e saúde que viraram apenas uma

A vida imortal de Henrietta Lacks é opção imperdível para quem se interessa pela história da ciência

Por Rogério Kiefer 29 de Dezembro de 2022 | Atualizado 29 de Dezembro de 2022

 

O último plano de 2022 está abandonado. A proposta inicial era aproveitar o apreço da internet por títulos como (três dicas de…) e publicar uma coluna com a indicação de livros sobre saúde e ciência. Mas os imperdíveis O Imperador de Todos os Males e O Mapa Fantasma – Como a luta de dois homens contra o cólera mudou o destino de nossas metrópoles vão ter de esperar. A história de Henrietta Lacks merece e cobra exclusividade.

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A Vida Imortal de Henrietta Lacks, da americana Rebecca Skloot, é resultado de mais de mil horas de entrevistas e revela uma personagem pouco conhecida, mas que tem conexões com alguns dos maiores avanços da ciência nas últimas décadas. Fala ainda sobre a importância da ética nas pesquisas científicas e mostra como o racismo entranhado na sociedade é perverso e capaz de invisibilizar pessoas.

No início dos anos 50, Henrietta Lacks começou a se queixar com amigas de problemas de saúde. Perto dos trinta anos, mãe de quatro filhos, sentia que havia “um caroço”  dentro dela. Depois de sofrer com fortes dores e sangramentos,  descobriu por conta própria uma massa no colo do útero e buscou tratamento médico. Encaminhada ao Hospital Johns Hopkins, onde estavam em andamento os principais estudos sobre câncer ginecológico na época, teve o diagnóstico assustador: “Carcinoma epidermoide do colo do útero”.

Na época, a doença matava mais de 15 mil mulheres por ano nos Estados Unidos. O exame do Papanicolau, desenvolvido em 1941, era a principal forma de diagnóstico precoce, capaz de aumentar as chances de sucesso do tratamento e reduzir a mortalidade. Mas o procedimento era inacessível principalmente para mulheres pobres e negras, como Henrietta. Diagnosticada tardiamente e tratada com cirurgias e radioterapia, ela morreu em poucos meses, vítima do crescimento descontrolado e da metástase dos tumores.

Mas a “Vida Imortal” de Henrietta tem uma segunda face, por muito tempo desconhecida, mas fascinante. Rebecca Skloot cita um artigo do médico e pesquisador Howard Jones, que diagnosticou o tumor de Henrietta.

“Do ponto de vista clínico, a Sra Lacks nunca se deu bem. Como Charles Dickens disse no princípio de Um conto de duas cidades: ‘Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos’. Mas foi o melhor dos tempos para a ciência pelo fato de que aquele tumor tão peculiar deu origem à linhagem de células HeLa. Para a senhora Lacks e a família que ela deixou, foi o pior dos tempos. O progresso científico, e, aliás, qualquer espécie de progresso, geralmente se dá a um custo alto, como o sacrifício feito por Henrietta Lacks”.

Durante décadas Henrietta Lacks foi vista (ou melhor, foi incluída nas estatísticas) apenas como mais uma vítima de uma doença difícil de controlar e tratar. Em tempos de segregação racial, teve a identidade mantida em segredo por décadas. Isso apesar de células colhidas de seu tumor para exames de biópsia terem “sobrevivido” e se tornado ferramenta essencial em laboratórios de todo o mundo (usadas sem consentimento, o que era comum na época).

Um parêntese que quebra o ritmo da narrativa, mas é necessário nesse ponto.

Até os anos 1950, cientistas tinham enorme dificuldade de testar medicamentos e outros tratamentos em tecidos humanos. Cultivadas in vitro, as células morriam de uma hora para outra, o que tornava inviáveis diversas pesquisas de laboratório. Tudo mudou durante a análise ao microscópio das células tumorais da biópsia de Henrietta. Em vez de morrerem, como ocorria com todas as culturas anteriores, elas sobreviviam e se multiplicavam aos milhões, de forma incontrolável. Uma característica essencial para tornar viáveis estudos comparativos ou de prazos mais alongados.

Fecha parêntese.

Batizadas de HeLa, as células se espalharam por laboratórios de pesquisa farmacêutica e genética de todo o mundo e foram fundamentais no desenvolvimento da vacina contra a poliomielite e inúmeros outros medicamentos, nas pesquisas de quimioterápicos, no mapeamento de genes, nas fertilizações in vitro e em diversas outras descobertas. Uma curiosidade: por sua capacidade incontrolável de multiplicação, as HeLas são até “invasoras” de outras culturas de tecidos.

De uma forma ou de outra, você por certo já foi beneficiado pela imortalidade de Henrietta. Vale muito a pena conhecer um pouco mais de sua história.

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