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Coluna Leitura | Tiro, porrada e bomba… e camelos: três livros mostram que a história brasileira pode ser surpreendente e curiosa
10 de Fevereiro de 2023

Coluna Leitura | Tiro, porrada e bomba… e camelos: três livros mostram que a história brasileira pode ser surpreendente e curiosa

Por Rogério Kiefer 10 de Fevereiro de 2023 | Atualizado 10 de Fevereiro de 2023

Profissional bem-sucedido nos anos 60, responsável por vestidos usados pelas “locomotivas sociais” da época e até pela então primeira-dama, Maria Teresa Goulart, o estilista Dener Pamplona tomou um susto e tanto ao ser acordado com a notícia:

“Os tanques estão na rua, Dener. Parece que a revolução venceu”.

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Imaginando o que considerava o pior dos mundos possíveis, anteviu algo mais aterrador “que o apocalipse”. Em seu pesadelo acordado, as damas mais refinadas do País, suas clientes, apareciam “de macacões azuis, colocando rótulos em pacotes de goiabada, em uma fábrica do subúrbio”. A história segue um tanto sem sentido até a descoberta do engano. Ao contrário do imaginado por Dener, não eram os comunistas que tomavam o poder. Em vez disso, os tanques tomavam as ruas para derrubar Jango, movimento que resultaria na tenebrosa ditadura militar das décadas seguintes.

Até então apavorado diante do fantasma comunista que tanto aflige parte dos brasileiros, Dener respirou aliviado ao perceber o equívoco e saiu pela rua “trepado em cima do carro, no maior carnaval”.

O causo de Dener, retirado de seu livro de memórias – O Luxo -, é um dos recortes incluídos no curioso Brasil – A história contada por quem viu, organizado por Jorge Caldeira. O livro traz uma seleção de 173 depoimentos de protagonistas de momentos históricos do País – desde a carta de Pero Vaz de Caminha até uma esperançosa redação escolar datada do início dos anos 2000. Há viajantes europeus relatando as maravilhas da nova terra; comentarias das primeiras revoltas e revoluções do império; Euclides da Cunha narrando o velório de Machado de Assis; Caetano Veloso desancando a plateia de um festival (discurso célebre do cantor); Carlos Chagas apresentando à comunidade científica a descoberta da doença que viria a ser conhecida como Mal de Chagas; Antônio Delfim Netto um tanto desalentado com a brandura do AI5, e até a entrevista de Pedro Collor de Mello à Veja, matéria que ajudou a derrubar o governo de seu irmão, Fernando Collor de Mello.

Há ainda crônicas históricas. Em uma, Nelson Rodrigues chama Pelé de Rei do Futebol pela primeira vez. Em outra, Lima Barreto, aos 30 anos, relembra o dia de seu sétimo aniversário (13 de maio de 1888). Naquela data, Dia da Abolição da Escravidão, ele e o pai viram a Princesa Isabel e acompanharam a comoção causada pelo momento histórico. Pouco mais de duas décadas depois, porém, o escritor conclui com a perspicácia característica: “Mas como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos enlameamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis!”.

 

São Paulo deve ser destruída

Conhecer a história do País é essencial – e pode ser um exercício de descoberta de fatos  pitorescos, inusitados ou surpreendentemente trágicos. Como o episódio, não tão conhecido, do sangrento conflito iniciado com o levante de militares – sempre eles! – de São Paulo contra o então presidente Arthur Bernardes, em 1924. Na época, marcada por grande instabilidade política, a Força Pública da maior cidade do País se amotinou e tentou derrubar o Governo. O resultado foi desastroso, como conta o historiador Moacir Assunção no interessantíssimo São Paulo deve ser destruída – A história do bombardeio à capital na Revolta de 1924.

Com documentos da época, depoimentos de moradores da cidade preservados em arquivos oficiais, cartas, recortes de jornal e pesquisa bibliográfica bastante completa, Assunção narra detalhes do conflito que causou a destruição de 1800 edificações, a fuga de mais de 250 mil pessoas  da cidade (mais de um terço da população da época) e um número incerto de mortos (que pode ter chego aos 4 mil). O estrago foi grande, principalmente porque o presidente da República decidiu, em ato inédito, bombardear a populosa cidade com canhões, tanques e aviação.
Curioso e desanimador perceber que mais uma vez o fantasma comunista pesou nas desastrosas decisões dos governantes. Assunção mostra que os bombardeios se concentravam em determinadas regiões da cidade, notadamente aqueles onde havia concentração dos então temidos “baderneiros estrangeiros”, imigrantes espanhóis e italianos identificados com o movimento operário. E acrescenta: “O governo também pretendia atemorizar os anarquistas e comunistas – tidos em princípio como suspeitos de sublevação pelos líderes da República Velha que haviam observado o poder de organização desses nas greves de 1917 e 1918 em São Paulo e no Rio de Janeiro”. “Na região que  foi atacada, se localizavam algumas das principais organizações anarquistas da cidade, como as ligas operárias do Brás, Mooca e Belenzinho”.

 

Catorze Camelos para o Ceará

Presente de um grande amigo, o exemplar de Catorze Camelos para o Ceará é novo, mas já está um tanto surrado. Tudo por ter acompanhado um leitor que não queria deixar de lado o livro do jornalista Delmo Moreira mesmo à beira mar. Além do texto agradável e envolvente, a história atrai pelo inusitado. Estrela do “novo mundo”, o Brasil era até então destino de cientistas e aventureiros que buscavam conhecer as riquezas e a natureza do País. Em geral, esses visitantes eram europeus.

O episódio contado no livro, porém, é o da primeira expedição brasileira planejada para percorrer terras desconhecidas do sertão nordestino. Além de colherem espécimes de fauna e flora local e descreverem a geografia pouco conhecida da região, os participantes deveriam ainda tomar parte de um incompreensível projeto de adaptação de camelos no País. A iniciativa nasceu a partir de uma inusitada Sociedade Imperial Zoológica de Aclimatação, que tinha sede em Paris, e atuava em projetos semelhantes em diversas partes do mundo.
Delmo Moreira mostra os inúmeros percalços das expedições, revela um pouco do compadrio tão característico das relações entre poderosos no País e deixa claras as dificuldades para avançar no conhecimento do território brasileiro com a empreitada. Reforça ainda o papel essencial da pesquisa, mas encerra de forma um pouco desanimadora.

Material coletado pelos viajantes no Nordeste fazia parte do acervo do Museu Nacional, queimado em um incêndio de grandes proporções em setembro de 2018. “Mas quantas das 14 mil amostras de Freire Alemão (um dos líderes da expedição) estavam catalogadas entre os mais de 600 mil exemplares do herbário salvo? Nas coleções de botânica expostas no segundo piso, que veio abaixo, havia algumas delas? … Mais de 5 milhões de insetos e 2 milhões de besouros, centenas de milhares deles ainda não descritos, viraram cinza”. Mais adiante, conclui. Jogamos fora um tesouro inimaginável por qualquer expedição científica da história”.

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