Há muito e muito tempo – na época em que ser troglodita era questão de sobrevivência, não motivo de orgulho – os diálogos eram simples.
Um neandertal grunhia daqui – o outro grunhia dali. Se havia entendimento, os dois caminhavam deixavam a caverna lado a lado para caçar o mastodonte – ou ser engolidos pelo dente de sabre. Quando a coisa ia mal, o mais rápido no tacape encerrava a controvérsia e seguia para a caçada do mastodonte – até um dia ser engolido pelo dente de sabre.
Na savana, a mecânica também era conhecida. Os caçadores mantinham o silêncio absoluto para não afugentar as presas. O grunhido gritado – sempre ele! – era um sinal claro: “danou-se tudo por aqui turma; o mais rápido vai sobreviver e os mais lerdos acabarão o dia no estômago do – quem mais? – dente de sabre”.
Tudo muito claro e objetivo.
O refinamento da linguagem surgiu em seguida. Dizem que essa mudança foi fundamental para evoluirmos. Sem os seguidos avanços na maneira como conversamos, refletimos e fofocamos sobre a vida alheia, não teríamos visto os primeiros hominídeos, incapazes de articular raciocínios complexos, se transformarem no homem contemporâneo, sujeito capaz de usar as ferramentas mais modernas da tecnologia para espalhar calúnias, difamações e desconhecimento por aí. Como disse o Armstrong Silva, colega batizado em homenagem ao astronauta: “um salto para a humanidade às vezes não é sequer um passinho adiante para a civilização”.
No fundo, no fundo – alguns bem na superfície – o homo sapiens ainda é um neandertal, mas hoje com pulôver nos ombros. E aí, finalmente chegamos ao ponto:
É urgente mudar a etiqueta do whatsapp!
De onde, diabos, surgiu a ideia de que antes de ligar para alguém ou detalhar um assunto é educado escrever “Podes falar?”, “Me liga!”, ou o quase homicida “PRECISO FALAR CONTIGO” – assim mesmo, em caixa alta, como quem grita? E para que escrever apenas o nome completo do interlocutor – como se ele pudesse ter alguma dúvida de que a mensagem enviada para o seu celular pessoal é destinada a ele?
Quem escreve ou diz nome completo é mãe brava!
Lembra do neandertal caçador?
Então.
“Podes falar?” é a versão moderna do grunhido na caçada. Ao ler isso, o interlocutor sente de imediato que cometeu um erro imperdoável no escritório; vê o carro aos pedaços; imagina o filho torcendo pelo Vasco ou outra tragédia semelhante.
Já o PRECISO FALAR é equivalente ao grito de terror que cortou a savana na primeira vez em que nosso antepassado remoto deu de cara com um dente de sabre faminto. Essa dúzia de letras é capaz de causar o mais profundo sentimento de morte ou de dor. A casa em chamas, o filho sequestrado, um ataque intelectualizado à magnífica Evidências, do mestre José Augusto … o coração sofre.
Em respeito ao Rivotril nosso de cada dia, há que se adotar paliativos no início das mensagens.
“Nada grave – posso ligar?”
“Tudo na mais perfeita ordem / tudo na mais santa paz, mas preciso falar com você”.
Essa deve ser a regra!
Aos desobedientes, que insistirem no terrorismo do vocativo, responderemos apenas com grunhidos.
