Documentário sobre o Steve Jobs tem uma cena curiosa: tempos após o lançamento do primeiro iPhone, ele vê diversas pessoas caminhando nas ruas com os olhos grudados no celular. Empolgado, diz que no futuro o aparelho pode vir a se tornar uma espécie de extensão do corpo humano.
A profecia está mais do que realizada. De olho na telinha, famílias perdem horas de convívio. Pessoas ignoram paisagens deslumbrantes e deixam de ouvir e viver os sons do mundo. Isso sem falar na desatenção que passou a ser comum durante qualquer bate-papo entre amigos e da dor nos músculos da nuca que aflige a todos nós.
A proliferação das redes sociais torna tudo pior. Todas as comidas são apetitosas e as pessoas, lindas e alegres. Uma vida de Ilha da Fantasia, que precisa ser denunciada e combatida.
Dia desses, revoltado com tamanha alienação, fiz minha parte. O celular, que estava com a bateria zerada, ficou em casa. Livre, dei o passo inicial para a reconexão com a cidade, a natureza, os amigos e até as pessoas que não conheço, mas com quem divido meus dias.
Os olhos em alerta, todo ouvidos, corri para a rua com a alma aberta para recuperar parte do que perdi nos últimos anos.
Nos primeiros metros de caminhada, sem fones de ouvido e playlist, descobri que a apresentadora de um programa matutino de variedades gravou o áudio promocional de um cartão de descontos. A mensagem é repetida e repetida e repetida e repetida em caixas de som no volume máximo colocadas em plena calçada. O efeito é imediato. O garçom-vendedor do restaurante vizinho faz o esforço extra para gritar ainda mais alto que o habitual a oferta do buffet livre. O rapaz sua e sofre, principalmente porque poucos metros adiante a atenção do pedestre é atraída pelo sujeito que canta, também armado de potentes microfones, com o talento de um bêbado de karaokê.
Mas o celular, com sua tela magnética, não nos priva apenas de ouvir a cidade. A paisagem também está ali ao redor, aguardando nosso olhar e sensibilidade. De imediato, um salto para desviar da poça de esgoto que extravasou na calçada. Mais adiante, sob marquises, incontáveis pedintes espalhados pelas calçadas – isso sem falar da invasão de placas de locação ou “passo o ponto” que dominam as fachadas de lojas fechadas pela crise.
Mas a oportunidade de uma experiência única sempre ronda quem está desconectado da tecnologia, portanto aberto ao humano. O otimista inveterado está na calçada oposta, bem à frente.
Não: definitivamente não há celular para atender.
Sorriso largo, o conhecido desaba nos meus ombros em um abraço desproporcional, quase pecaminoso. Conta que anda por aí a espalhar a alegria de viver e a importância de pensar positivo. Enquanto fala, segura nos braços e nas mãos, dá tapas nas costas como quem tenta salvar um engasgado e abraça (como abraça, Santo Deus!).
Dez minutos de conversa, verdadeira eternidade, são suficientes. Digo ao conhecido que lembrei de urgência urgentíssima e preciso seguir.
Corra taxista!
Em casa, depois da compra online de um desses apetrechos que servem de bateria reserva, com autonomia prometida de três dias, a constatação óbvia e a decisão inabalável. Nunca mais saio de casa sem celular, fones, carregador e todos os maravilhosos aplicativos alienantes.
A saúde mental não suporta tanta realidade.
