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A Alcione tinha idade indefinida, quatro ou cinco dentes na boca, teste de HIV positivo, seis filhos e não completava duas frases sem um erro de português. Semana sim, semana também, estava ao pé da escada do apartamento. E sempre pedia a mesma coisa: dinheiro para gás e fraldas.
A jovem pesava uns 40 quilos e por certo não era dona de restaurante. Óbvio, portanto, que a expressão “me dá um dinheiro para o botijão de gás” era invenção. Como funcionou das primeiras vezes, tornou-se o grande mantra da nossa relação. Ela não tinha a necessidade de contar desgraças em plena Felipe Schmidt e eu pagava o dízimo da parcela de culpa cristã (mal que acomete mesmo o ateu) por ter casa, comida, roupa lavada e ainda uns trocados para a cerveja.
O artifício do gás não faz da Alcione uma arrematada mentirosa, falsária ou a perigosa mentora ou cúmplice de um esquema criminoso mantido com moedas de 1 real e notas de cinco arrecadadas no sinal. A Alcione me enganava – e eu me deixava enganar. Convenhamos que ainda assim a balança estava desequilibrada – e em meu favor.
Que opções estavam postas diante da Alcione?
Há uma moda por aí de espalhar pelos semáforos cartazes que “ordenam”: ‘não dê esmolas’, como se esse fosse o grande obstáculo para o sucesso de políticas de enfrentamento da desigualdade. Uma platitude, óbvio, que tem por base a ideia preconceituosa de que todo pobre é também um arrematado vadio e conformado (atendidas as necessidades mínimas de sobrevivência, ele não teria mais vontade de construir ou conquistar coisa alguma). Verdade tão crível quanto uma nota de 3000 reais ou a crença de que todo e qualquer super rico é um poço de virtudes e merecimentos (a turma de heróis das Americanas e o Elon Musk que o digam!).
A história, aliás, ajuda a entender um pouco melhor nosso fetiche pelo sujeito endinheirado, em quem sempre estamos dispostos a encontrar virtudes e perdoar pecadilhos, pecados ou “pecadões” em troca de agrados que o dinheiro pode comprar e oferecer ou por deslumbre mesmo. O fenômeno ganhou força a partir da Idade Média, como mostra o historiador francês Jacques Le Goff no curto e ótimo A Bolsa e a Vida. Na época, a igreja achou por bem mudar algumas verdades tidas como absolutas até então. O destino do usurário, aquele que empresta dinheiro a juros, deixou de ser a danação eterna no inferno, certeza inquestionável até então. Em vez disso, seu pós morte passou a ter como parada inicial o purgatório, de onde seria possível escapar diante de uma boa contribuição para a caridade (deixada em testamento ou providenciada por herdeiros). A mudança na maneira de enxergar o acúmulo de dinheiro e o trabalho dos “financistas” viria a ser importante na aceitação do capitalismo e do capitalista em um futuro não muito distante.
Em tempos de culto ao individualismo e à chamada meritocracia, sabe-se lá que diabo seja isso, o risco é outro. Aqui e ali crescem os discursos de intolerância, de preconceito racial e de criminalização da pobreza, muitas vezes com associação a ideias superficiais de sujeira, ignorância, promiscuidade e criminalidade. Generalizações infundadas e preconceituosas como essas, a história mostra, são terreno fértil para atos violentos e injustiças, muitas vezes escamoteados sob o manto de promoção ou proteção do bem comum.
Portanto, quem estranhou ou se incomodou com atitudes de uns e outros no Carnaval 2023 que busque explicações nos livros ou olhando ao redor. Uma dica: elas podem estar em um samba tornado clássico por João Gilberto.
Janet De Almeida e Haroldo Barbosa são compositores da profética Pra que Discutir com Madame:
“Madame diz que a raça não melhora
Que a vida piora por causa do samba
Madame diz o que samba tem pecado
Que o samba, coitado, devia acabar
Madame diz que o samba tem cachaça
Mistura de raça, mistura de cor
Madame diz que o samba democrata
É música barata sem nenhum valor
Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que samba é vexame
Pra quê discutir com madame?
Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que samba é vexame
Pra quê discutir com madame?
No carnaval que vem também concorro
Meu bloco de morro vai cantar ópera
E na Avenida, entre mil apertos
Vocês vão ver gente cantando concerto
Madame tem um parafuso a menos
Só fala veneno, meu Deus, que horror
O samba brasileiro democrata
Brasileiro na batata é que tem valor”

