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Coluna Leitura – Philip Roth não poupa ninguém
09 de Dezembro de 2022

Coluna Leitura – Philip Roth não poupa ninguém

Um dos maiores escritores americanos de todos os tempos, autor judeu deixou uma obra monumental

Por Rogério Kiefer 09 de Dezembro de 2022 | Atualizado 09 de Dezembro de 2022

 

Philip Roth, um dos maiores escritores americanos de todos os tempos, não podia ser acusado de otimista. Essa é uma ótima notícia. Crítico, cético, atento ao humano, demasiado humano que todos carregamos, sabia que A Marca Humana (título de um de seus livros) é definida por “Impureza, crueldade, maus-tratos, erros, excrementos, esperma”. E ia além: “Está em todo mundo. Por dentro. Inerente. Definidora. A marca que precede a desobediência, que abrange a desobediência e confunde qualquer explicação e qualquer entendimento… A fantasia da pureza é um horror. É uma loucura”.

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Quem vê os moralistas de meia pataca que ocupam espaço crescente por aí, ditando regras e julgando a tudo e a todos, pode encontrar refúgio seguro em Roth. Ele sabia que há moralistas depravados, justiceiros criminosos, idealistas preconceituosos, valentões covardes e até indivíduos carregados de boa vontade que cometem verdadeiras atrocidades. Sabia disso tudo, mas não perdia tempo com julgamentos e condenações. Apenas mostrava o que via e dava ao leitor a oportunidade de acompanhá-lo no passeio pelo ridículo humano.

O guia na jornada não era o próprio Roth, mas algum dos personagens célebres criados por ele. “Gente” como Nathan Zuckerman, visto por muitos como alter ego do escritor, ou Alexander Portnoy, protagonista de apenas um livro. O Complexo de Portnoy, marco da carreira do autor, é viagem um tanto desconfortável pela mente do indivíduo cheio de obsessões e taras, com dificuldades enormes de relacionamento com mulheres e uma compulsão pela masturbação (o sexo, diga-se de passagem, é presença frequente em toda a obra de Roth). Uma obra-prima, mas talvez leitura pouco indicada para dias de sol e cadeira de praia como os que estão por vir.

Protagonista bem mais frequente em romances é o também escritor, judeu como o autor, Nathan Zuckerman, outra figura inesquecível. Em sua última aparição, no excelente Fantasma Sai de Cena ele protagoniza uma história comovente. Impotente e sofrendo de incontinência urinária, consequências de um câncer de próstata, é esmagado pela passagem do tempo e pela impossibilidade de vitória diante da vida. Apaixonado por uma jovem casada, nutre crenças quase infantis antes de perceber a impossibilidade absoluta de sucesso na empreitada amorosa. Também vê velhos amigos morrerem ou enfrentarem doenças graves e se rende a uma constatação inescapável: é triste sobreviver a tudo e a todos e se descobrir fraco e frágil.

Um dos conflitos da trama mostra o enfrentamento um jovem escritor e Zuckerman, que tenta impedir que o rapaz produza uma biografia desabonadora de seu maior ídolo. Nosso “herói” tem vitórias temporárias, mas conclui que jamais terá êxito na disputa com um indivíduo que carrega em si a “juventude ignorante, munida de uma saúde selvagem e armada de tempo até os dentes”. Certo desalento diante da vida e de seus percalços é matéria prima abundante na obra do autor, que apesar disso é dono de senso de humor dos mais refinados.

A combinação velhice, decadência e morte é o carro-chefe do livro que talvez seja a melhor porta de entrada para o universo de Roth. Patrimônio narra o convívio do autor com o pai moribundo em seus últimos tempos de vida. O velho vendedor de seguros, inpiração de outros tantow coadjuvantes em outras histórias, carrega junto ao cérebro uma massa que cresce sem parar e que não pode ser retirada pelos médicos – uma sentença de morte sem data definida para ser consumada, portanto.

A tragédia iminente serve para Roth falar da família e da vida, mas também para mostrar mais uma vez seu aguçado senso de realidade. Em uma passagem ao mesmo tempo trágica e sensível, ele encara a paisagem do lavabo onde o pai acabou de ter uma crise provocada pelo descontrole do próprio esfíncter.

“O banheiro dava a impressão de que um bandido perverso deixara ali seu cartão de visita após roubar a casa. Como eu já tinha cuidado de papai, e era isso que contava, por mim teria fechado a porta com pregos e esquecido o banheiro para sempre. ‘É como escrever um livro’, pensei, ‘não sei por onde começar’. Mas atravessei o chão com cuidado e, me inclinando para a frente, abri a janela, o que já era um começo”… “Foi mais fácil lidar com a merda em frente do vaso, pois ali ela formava uma massa mais ou menos compacta. Era só pegar do chão, jogar na privada e puxar a descarga. A porta do boxe, o peitoril da janela, a pia, o pratinho do sabonete, as luminárias e os suportes de toalhas não foram problema. Uma porção de toalhas de papel e muito detergente. Mas onde ela tinha se depositado nas frestas estreitas e irregulares do assoalho, entre as velhas e largas tábuas de castanheiro, aí tudo se complicou”…

A limpeza segue por mais alguns parágrafos até o desfecho: “E, agora que a tarefa fora concluída, não podia estar mais clara para mim a razão pela qual aquilo era certo e era o que tinha de ser. Aquilo era o patrimônio. Não porque limpá-lo simbolizasse alguma outra coisa, mas porque não simbolizava nada, porque era nada mais, nada menos do que a realidade existencial nua e crua. Ali estava o meu patrimônio: não o dinheiro, não os tefilins, não a tigela de barbear, mas a merda”.

Roth criou literatura da melhor qualidade e deixou uma produção essencial. Uma obra de um apaixonado pela criação. Em entrevista, disse certa vez: “Arte é vida, também, sabe? Solidão é vida, meditação é vida, fingimento é vida, suposição é vida, contemplação é vida, linguagem é vida. Haverá menos vida em virar frases pelo avesso do que em fabricar automóveis?”. Já o seu maior personagem, Nathan Zuckerman, afirmou: “A vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante”.

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