De saída, a ideia pareceu boa. Um texto inteiro dedicado ao Gabriel García Marquez! O sujeito foi gênio, ganhou Nobel e escreveu milhares de páginas da melhor literatura já produzida. Na aba da fama do colombiano, a coluna ganharia uns cliques extras – além do prestígio.
Separados alguns dos livros do homem já lidos, os obstáculos se multiplicaram. A idade avançou e a memória já não dá conta de recuperar detalhes da leitura de duas décadas e meia atrás. A vida dos Buendia embaçou. De Cem Anos de Solidão, pode-se dizer que a lembrança cobre uns poucos meses talvez: as imagens fantásticas da chuvarada e de Macondo, a engenhosidade na abertura, citada milhares de vezes em resenhas e recortes variados, a costura engenhosa das múltiplas histórias. É pouco.
Claro que o Gabriel García Marquez tem muito mais. Lidos há bem menos tempo – e por isso ainda presentes na memória o suficiente para permitir comentários – O Amor nos tempos do Cólera e O Outono do Patriarca mostram por que o amigo do Fidel era um gênio inquestionável.
No primeiro, uma história de amor com episódios inspirados na vida dos pais do autor, há lirismo e algum sentimentalismo (não confundir com pieguice). A beleza e até certa ingenuidade do relacionamento que parece ganhar força na adversidade e na impossibilidade de consumação são emocionantes. Isso sem falar da forma carinhosa do autor de falar sobre os velhos – de seus sofrimentos, mágoas acumuladas e esperanças perdidas.
Bem diferente é O Outono do Patriarca. Colocado na cadeira de mandatário da nação quase por acidente, na esteira de um golpe, o ditador não tem traquejo para a política, é um tanto limitado intelectualmente e incapaz de conviver com quem o contesta (atenção: o assunto é o livro, não a edição de ontem do Jornal Nacional). Para manter o poder, abusa da violência, não poupa sequer velhos amigos e comete verdadeiras atrocidades. O livro tem mortes às dezenas, urubus na carniça, imundície, abusos sexuais e diversas outras violências. O patriarca surge morto nas primeiras linhas – e daí em diante, ao recuperar sua trajetória, Gabriel Garcia Marquez mostra sua decadência física e psicológica: a solidão do poder, a angústia de temer a traição dos que vivem por perto, a impossibilidade de relacionamentos saudáveis e a ilusão de se sentir amado por aqueles que apenas o temem.
Escrito na época em que as ditaduras militares abundavam na vizinhança, o livro não é dos mais animadores. Lá pelo meio da história, quando fala da possibilidade de vir a faltar, o patriarca é lúcido: “se no final das contas quando eu morrer voltarão os políticos para repartir esta merda como nos tempos dos godos, vocês vão ver, dizia, voltarão para repartir tudo entre os padrecos, os gringos e os ricos, e nada para os pobres, naturalmente, porque estes estarão sempre tão fodidos que no dia em que a merda tiver algum valor, os pobres nascerão sem cu…” (desculpe o palavrão, mãe – é do Nobel, não meu). A leitura é imperdível, mas exige atenção. Gabriel García Marquez passa páginas e páginas sem colocar um ponto final entre os raciocínios encadeados e usa e abusa das imagens fantásticas que ninguém soube usar como ele.
Por fim, mas não menos importante, vale deixar uma lição do colombiano que foi genial até quando desistiu de escrever sobre algo. Gabriel García Marquez conta no prólogo do volume dos Doze Contos Peregrinos um sonho que teve e cogitou transformar em conto, o que nunca fez. Ele e um grupo de amigos participam de evento festivo, com música, bebida, dança.
Todos sorriem e se divertem. O acontecimento é o velório do próprio escritor. Depois de algum tempo, quando a festa acaba, a turma se dirige para uma saída. À porta, o último amigo diz a Gabriel: “você precisa ficar por aqui”. O autor conclui: “morrer é não poder seguir adiante com os amigos”.
