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Coluna Leitura | Evoé Gilberto Gil!
15 de Março de 2023

Coluna Leitura | Evoé Gilberto Gil!

Hoje, Sérgio Porto teria material para 25 edições do FEBEAPA

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Por Rogério Kiefer 15 de Março de 2023 | Atualizado 15 de Março de 2023

O amigo acelera o passo e me alcança na porta do supermercado. Papo vem, papo vai, reforça a ojeriza à fofoca, mas lembra o compromisso inarredável com a verdade. Reluta um pouco – Deus me livre ser leva e traz! – e enfim conta que um fulano anda por aí a repetir que eu não passo de um grosseirão, estúpido e imbecil.

Preocupado em evitar qualquer briga ou confusão – Deus me livre ver dois amigos se estapeando! – se limita a passar o mínimo indispensável de informações sobre meu detrator: nome, sobrenome e apelido, número do CPF, endereço residencial e comercial (com CEP), nome da mãe e do pai, raça do cachorro e os horários onde eu posso encontrá-lo no bar da esquina.

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Diante da menção que faço de seguir em frente, segura meu braço e lembra os últimos detalhes do enredo. “Soube – Deus me livre envolver mais pessoas na polêmica! – que ele já repetiu essas opiniões sobre você para pelo menos outras quatro pessoas”.

Depois de uns vinte ou trinta “Deus me Livre” escapo do defensor da minha honra. Antes, deixo um recado: “Espalhe para o máximo possível de pessoas, por favor, que o fulano me odeia. Pouca coisa pode contribuir mais para a minha imagem”.

Regras da boa narrativa dizem que o parágrafo que começa aqui deveria ter alguma conexão com o anterior. Mas o espaço para falar de livros e preciso encaixar um título qualquer por aqui para manter o crachá de colunista – mesmo que para isso tenha de provar a todos que sou um engano como redator. Há chance de redenção, já que a ideia é retomar o fio da meada lá no fim do texto.

Nos anos 60 o jornalista e cronista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, lançou o FEBERAPA – Festival de Besteiras que Assola o País. O livro, uma coletânea de comentários sobre tolices e asneiras ditas ou praticadas principalmente pelas “autoridades”, partia de histórias coletadas em jornais para mostrar o ridículo dos poderosos. Isso em plena ditadura, quando debochar dos governantes e de seus bajuladores era um risco. Irônico e perspicaz, Sérgio era um radar capaz de farejar uma bobagem a quilômetros de distância. Identificado o alvo, ridicularizava a besteira e o seu autor sem perder a elegância e a graça.

Também um cronista sensível (O Homem ao Lado e A Casa Demolida são exemplos da melhor crônica brasileira), o autor hoje teria besteiras suficientes para escrever não dois volumes do FEBEAPA, como fez, mas umas 25 edições de mil páginas cada uma.

Florianópolis, claro, teria direito a algum espaço. Dia desses li por aí a fala de um vereador. A intenção era explicar a motivação para uma eventual negativa a qualquer homenagem ao Gilberto Gil, que será muito bem recebido na cidade e receberia a Comenda da Coluna Leitura se tal distinção existisse. Dizia o edil (a palavra um tanto arcaica se aplica ao caso) que reconhecer o cantor, “preso pelo uso de entorpecentes”, poderia ser um incentivo para que mais e mais pessoas passassem a usar drogas por aqui.

Há provas, porém, de que o catarinense não é tão suscetível quanto imagina o vereador falastrão. Não fosse isso, imagine quantas bobagens todos estaríamos falando por aí depois de ler suas opiniões.

Para finalmente tentar recuperar o fio da narrativa, vai o recado para o Gil. Creia, querido, que pouca coisa pode contribuir mais para a sua imagem do que ser criticado por uns e outros.

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