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Coluna Leitura | Cinco dicas para quem vai incluir o item ler literatura nas resoluções de ano-novo
21 de Dezembro de 2022

Coluna Leitura | Cinco dicas para quem vai incluir o item ler literatura nas resoluções de ano-novo

Dica da craque Chimamanda Ngozi Adichie: leia romances

Por Rogério Kiefer 21 de Dezembro de 2022 | Atualizado 21 de Dezembro de 2022

A Chimamanda Ngozi Adichie que me perdoe, mas misturo alhos e bugalhos e começo pela Copa do Mundo e por Lionel Messi em busca de maior relevância nas ferramentas de busca. Os jogos da Copa do Qatar (atenção Google!) mostraram mais uma vez a importância daquilo que os especialistas chamam “jogador moderno”: atleta capaz de defender e atacar com a mesma qualidade (Griezmann), correr pela direita ou pela esquerda (Di Maria), ser um dia zagueiro, no outro lateral (Koundé). Em campo, o bom e velho faz-tudo está em alta.

Na literatura, o multitarefas talentoso não é figura frequente – e Chimamanda Ngozi Adichie aparece como feliz exceção. Autora de ótimos livros, ela também é sucesso nas plataformas digitais, com mais de 1,6 milhão de seguidores no Instagram, ícone da moda, pensadora respeitada e ativista. Uma figura moderna e cosmopolita, simpática, bem-humorada e talentosa, que provavelmente atrai muita gente jovem para a literatura.

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Os livros são a grande “plataforma” (vá lá o termo transplantado da tecnologia) de Chimamanda. A base sobre a qual se assenta sua fama inclui os excelentes Meio Sol Amarelo, Americanah e Notas sobre o luto (relato tocante sobre a morte do pai da autora na pandemia da Covid). Mas ela vai além. Dois de seus TEDx são conhecidos em todo o mundo e até viraram livrinhos (no diminutivo por causa do tamanho mesmo, não da qualidade). Sejamos Todos Feministas e O Perigo da História Única são leves, mas capazes de despertar dúvidas importantes no ouvinte/leitor, guiado gentilmente por uma reflexão sobre os próprios atos e crenças sobre temas essenciais.

Menos conhecido, mas igualmente esclarecedor, é o discurso de Chimamanda na formatura de uma turma de Harvard em 2018 (disponível no Spotify). Ela fala de privilégios, de responsabilidade, da importância de buscar e proteger a verdade e faz um apelo: “leiam literatura”. A autora defende que os romances tornam as pessoas capazes de ver o mundo com suas inúmeras nuances e que o leitor tem mais facilidade de enxergar o outro como indivíduo. Dessa forma, compreende suas motivações e angústias e pode ter um olhar mais empático para o “diferente”. Isso em vez de ver indivíduos apenas como números ou elementos da paisagem, por certo uma das causas das tragédias humanas que nos cercam.

Aceitou a dica de Chimamanda? Então seguem cinco sugestões que vão ajudá-lo a incluir livros na rotina em 2023:

 

A Amiga Genial – Elena Ferrante

Primeiro volume da famosa tetralogia da autora italiana, a chamada Série Napolitana. A história é linear e bem agradável para quem ainda não tem hábito da leitura. Elena Ferrante conta a vida de Lenu e Lina e mostra como cumplicidade, ternura e camaradagem podem coexistir com algum ressentimento, inveja e desequilíbrio mesmo em uma relação de profunda amizade e amor.

 

Enclausurado – Ian McEwan

A grande curiosidade do livro é o protagonista-narrador: um feto. Ele conta a história a partir do ponto de vista de quem aguarda ansioso as horas que faltam para escapar da placenta. Bem-humorado, espirituoso e entendido em vinhos franceses, o bebê acompanha de perto – bota perto nisso! – os encontros sexuais da mãe e os desdobramentos do plano traçado por ela para matar o ex-marido (no caso, o pai do narrador).

 

Vento Vadio – Antônio Maria

As crônicas de Antônio Maria nunca haviam sido publicadas em livro. Pesquisador e organizador da coletânea recém-lançada, Guilherme Tauil felizmente dedicou-se a corrigir a situação. Criativo com as palavras, Maria tem de sobra o que faz um bom (excelente, no caso) cronista. De quase nada, ele faz algo capaz de mostrar o universal. De uma simples ida ao Maracanã, por exemplo, vem o trecho que explica a relação do brasileiro com o futebol:

“O povo, mais que tudo, naquilo que é o seu maior e mais completo bem-estar: o futebol. Mais que o Carnaval. O homem das gerais, de chapéu e blusão, vivia o máximo da felicidade. Ali estava esquecido de todas as suas limitações, de toda sua pobreza. Era livre e descuidado e não tinha mais que um coração feliz e uma mente sem memória. Nada de passado. Nada de futuro. A vida era aquele momento. O mundo não estava embaixo dos seus pés, nem em volta de si. O mundo era cada um e, dentro de cada um havia um universo à parte. Viria a realidade, depois, no último apito do juiz. O juiz, não encerra, simplesmente, uma partida de futebol. Interrompe, bruscamente, o estado de graça do homem das gerais”.

 

O Velho e o Mar – Ernerst Hemingway

O Joventino era um chato de quatro costados. Apesar disso, o rapaz teve méritos: ajudou a inesquecível Juma Marruá a aprender a ler e indicou o clássico de Hemingway, que surgiu nas mãos dela perto dos últimos capítulos de Pantanal. Nobel de Literatura, Hemingway criou uma obra relativamente curta que traz muitos de seus gostos: a pescaria, o mar do Caribe, o beisebol e o enfrentamento entre o homem e a natureza (nesse caso um tubarão, em outros os touros). A linguagem é objetiva, direta, com as palavras ideais e adequadas para cada situação, como o autor gostava. Oxalá Juma tenha tido tempo de acabar a leitura antes do sumiço do Véio do Rio.

 

Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie

Se você aceitou a dica da autora, nada melhor que começar pelo mais conhecido dos seus livros. Americanah conta a rotina de estranhamento e descobertas de uma jovem, a encantadora Ifemeblu, que deixa o continente africano para estudar e morar nos Estados Unidos, experiência vivida também pela autora. Em paralelo, corre a história do antigo namorado da protagonista, Obinze, que faz fortuna depois de uma passagem pela Inglaterra. Chimamanda fala de preconceito, de migração, das concessões que fazemos para prosperar, de amor e de coisas boas que podem acontecer a quem arrisca. Excelente opção para começar 2023.

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