Coluna Fernanda Bornhausen | Você prestou atenção nas mensagens dos 5 minutos finais do documentário Dilema das Redes - Our Social Dilemma? 

07 de Outubro de 2020

Esse não é mais um dos milhares de artigos sobre o todo do documentário Dilema das Redes, é um convite à reflexão

 

Que tal refletir sobre os últimos 5 minutos do mesmo
no qual somos apresentados ao "OUR SOCIAL DILEMMA"

com falas que concorrem com as legendas e créditos, ou seja
aqueles momentos finais em que muitos já saíram da tela. 

 

Comecei a assistir o documentário com a forte convicção, que me acompanha desde 2007, de que o uso da Tecnologia e dos Dados para o Bem ou para o Mal é uma escolha de cada um de nós que temos o poder na ponta dos dedos para mudar aquilo que nos incomoda e ajudar a resolver os grandes problemas sociais da humanidade. E acabei de assistir o documentário com a certeza de que nunca foi tão importante reforçar o time que usa a Tecnologia e os Dados para o Bem e também que a democratização da Educação em Dados é urgente e essencial para que, dentre outras coisas, as pessoas possam ter consciência e informações consistentes sobre o mundo VUCA em que estamos vivendo. 

 

 

Nos últimos 5 minutos do documentário os mesmos protagonistas que durante uma hora e trinta minutos colocaram holofotes em alguns dos graves e reais problemas causados pelo uso da tecnologia e dados, ao meu modo de ver de maneira superficial e um tanto sensacionalista (lembrando que o mesmo está sendo disponibilizado na plataforma Netflix que no momento em que estamos assistindo está nos trackeando e usando nossos dados para futuras recomendações), se mostram otimistas na solução desses problemas. Mas apesar de trazerem uma mensagem positiva no final, considero que não fecham a história com um uma chamada para a ação (call to action) consistente, convincente e prática que ajude as pessoas a lidarem com o lado negativo dos efeitos do uso da tecnologia que eles evidenciaram durante os 90 minutos anteriores. Ao criar o roteiro os autores sabiam do potencial que o mesmo, transformado em uma produção bem feita e veiculação no Netflix, teria para ganhar muita audiência rapidamente e portanto aqui entra o meu questionamento sobre a responsabilidade e ética de evidenciarem os problemas da maneira que escolheram sem mostrar soluções. 

É muito provável que esse documentário deixe as pessoas que entendem pouco de tecnologia e dados, a esmagadora maioria, mais ansiosas do que já estão e torço para que os autores estejam preparando a parte 2 com exemplos concretos de soluções para o Dilema, para as quais, na minha opinião, já deveriam ter dado destaque aumentando o mesmo em 30 minutos na versão recém lançada. 

O Tristam Harris fundou em 2018 uma organização sem fins lucrativos para fomentar práticas do uso da tecnologia para o bem, a Human Tech , que trabalha por um mundo no qual a tecnologia esteja alinhada com os melhores interesses humanos.A iniciativa é importante, mas senti a falta de destaque para a mesma no documentário pois entendo que um dos melhores caminhos quando evidenciamos um problema dessa magnitude é dar luz, na mesma proporção, às soluções que existem e nas quais as pessoas podem se engajar, bem como usar um tempo para informar como as pessoas podem se educar sobre o assunto para evitarmos o pânico e medo que podem nos paralisar e, dado ao momento atípico que estamos vivendo, agravar mais ainda o estresse e a epidemia de saúde mental.

Ao assistir o documentário eu tive um "Déjà-Vu" de 2011,do momento no qual eu decidi que o meu grande propósito como voluntária seria, dali em diante,o de ajudar a fomentar o uso de Tech for Good (Tecnologia para o Bem) em grande escala no Brasil. Esse meu "aha moment", esse "tipping point" (ponto de virada), aconteceu quando eu estava assistindo o Social Good Summit, em Nova Iorque, com os vencedores do Prêmio Nobel da Paz, Muhammad Yunus, Elie Wiesel e Desmond Tutu no palco debatendo sobre o poder do uso das tecnologias e novas mídias para ajudar a resolver os grandes problemas mundiais.Nesse debate se evidenciou que com o rápido avanço das tecnologias e mídias sociais os líderes estavam frente a frente com a opção de escolha entre fomentar o uso das tecnologias para o bem ou para o mal. E eles, como protagonistas da Paz Mundial, ao mesmo tempo em que concordaram de que deveria ser formada uma grande força para o bem, convidaram a audiência para fazer parte dela, um convite irrecusável que eu imediatamente aceitei e que me moveu a idealizar, ali mesmo no evento, o protótipo do que hoje é o Social Good Brasil. 

E hoje, passados quase 10 anos de um trabalho diário de uma rede que fomenta o uso da Tecnologia e Dados para o Bem, os convido a refletir sobre: 

O que tem sido feito para o Bem com os avanços da tecnologia? Temos mais problemas do que benefícios com o avanço do uso da tecnologia e dos dados? 

Como podemos usar o poder da tecnologia, dos dados e do pensamento inovador em favor de uma sociedade mais justa e mais humana? 

O caminho do uso da Tecnologia e Dados para o Bem, aliado ao Novo Poder e a uma valorização cada vez maior das habilidades humanas, é o caminho que estamos trilhando em rede no Social Good Brasil e que a cada ano ganha mais força na nossa grande família de centenas de milhares de pessoas no Brasil e de milhões no mundo. Essa discussão e as problemáticas, que se espalham como pólvora com o documentário protagonizado por profissionais do Vale do Silício, fazem parte do nosso dia a dia e é o que as nossas metodologias e programas ajudam a endereçar. 

Usar Dados para o Bem nunca foi tão importante, e estou convicta que democratizar rapidamente a Educação em Dados é crucial para que as pessoas possam tomar decisões com mais consciência e com base em dados e evidências, não em achismos ou informações incompletas e/ou incorretas. 

Como vamos agir se não temos educação para tal? 

Como vamos ajudar na solução dos problemas, criados pelos seres humanos, que são potencializados pelas tecnologias? 

Sempre é bom lembrar que os problemas que estão sendo evidenciados foram criados pelos seres humanos, não pela tecnologia. Acredito que só avançaremos nas soluções desses problemas com a democratização dos melhores e mais confiáveis dados e evidências sobre o assunto, juntamente com formas e caminhos concretos para ajudar a resolver os mesmos com uma grande dose do molho secreto da valorização e reforço das habilidades humanas. 

Considero o documentário útil para dar visibilidade a esse importante tema através do olhar de profissionais de tecnologia que desempenharam papéis cruciais na construção das Empresas Plataformas que eles hoje questionam, principalmente sob o ponto de vista da ética. Mas ao olhar a forma superficial que o assunto foi abordado para a grande maioria das pessoas que não conhece o mesmo com profundidade, parece que estou vendo muitos falando de demônios em forma de algoritmos, os "Algodemos", sem ter a menor ideia do que é um algoritmo. Ou da Satânica Inteligência Artificial "SatãIA", sem entender do que se trata. Ou então as pessoas sonhando acordadas que os "protagonistas do mal", que o documentário colocou manipulando os bastidores do dia a dia dos personagens de uma família fictícia à beira de um surto por conta do uso da tecnologia, estão atormentando as suas vidas. 

Uma das mensagens finais do documentário trata de um chamado para as pessoas apagarem as contas que temos nas plataformas como se isso fosse resolver o problema em um click. Concordo com o Silvio Meira, em seu excelente artigo sobre o documentário, que "Remover Facebook do smartphone e apagar contas nas redes sociais não é solução e não acontecerá em escala [dito isto, abandonei o Facebook há tempos]. O que precisamos é tratar é o conjunto de problemas associados à isenção, transparência e responsabilização de algoritmos e da regulação de certos mercados em rede, e disso pouca gente fala - ou quer falar"

No Social Good Brasil trabalhamos dia a dia, fomentando o uso de Tecnologia e Dados para o Bem e eu convido você para conhecer o nosso trabalho e se juntar a nós. 

Faço um convite especial a você que me acompanha para se inscrever no Festival SGB que acontecerá de 3 a 7 de novembro totalmente virtual e gratuito, no qual discutiremos os temas levantados no documentário, a implementação da LGPD ( Lei Geral de Proteção de Dados) e mostraremos soluções Tech e Data for Good. Também lançaremos uma Sala Situação de Educação em Dados que vai ajudar muito a democratizar esse tema crucial. 

 

 

Como psicóloga e aluna de pós-graduação em Neurociências e Comportamento poderia escrever aqui várias páginas sobre esse tema, uma delas sobre um assunto no qual estou me aprofundando e que tem tudo a ver com essa coluna: Existe Livre Arbítrio no Mundo VUCA? Mas esse tema instigante fica para nosso próximo encontro. 

Muito obrigada pela leitura! Todo o feedback é muito bem vindo no fernanda@clearinovacao.com.br e no https://www.linkedin.com/in/fernandabornhausensa/

 

Fernanda Bornhausen

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    Apaixonada por inovação e empreendedora de sonhos, Fernanda é guiada pela lógica do impossível. Psicóloga com MBA em Administração Global, é Co-Founder e Presidente Voluntária do Social Good Brasil, sua grande família e seu propósito maior. Também é CEO da Clear Inovação, VP do Conselho Deliberativo da ACATE/SC, Conselheira do Grupo Cometa e mentora de diversos empresários e executivos. Acredita no poder dos dados para a sustentabilidade dos negócios e para ajudar a resolver problemas sociais. Acompanhe Fernanda pelo Linkedin> https://www.linkedin.com/in/fernandabornhausensa/

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