Fofoca não é boa coisa. As notícias falsas, desde os tempos daquelas tias no beiral da janela, espiando a vida dos outros, serviam para espalhar mentiras ou deturpar a verdade, muito geralmente denegrindo a imagem de alguém. Ainda assim, as tias velhas, bem como todos os outros fofoqueiros de plantão, tinham o direito e a liberdade de fofocar. E quando algo muito grave acontecia, o ofendido tinha todo o respaldo de buscar justiça em ações por injúria, calúnia, difamação e, mais recentemente, em casos mais graves, por danos morais.
Uma coisa era certa: havia liberdade de expressão, direito garantido na Constituição, e, na contrapartida, direito à reparação judicial. Aí chegaram esses novos tempos de tecnologia que deram voz potencializada a todos, às pessoas boas e às ruins, às notícias verdadeiras e às fofocas, e retiraram dos veículos de comunicação o monopólio da informação. Depois da internet e das redes sociais, qualquer pessoa repassa conteúdo informativo, muitas vezes mais rápido do que a própria imprensa.
A democracia em vigor e a liberdade de expressão garantida constitucionalmente, no entanto, parecem estar sucumbindo às novas artimanhas de controle social, às novas maneiras de retomada do controle da informação e, por consequência, da “verdade dos fatos”. O golpe mais claro deste controle foi explicitado pela rede social Facebook que, a partir de agora, “tira do ar” as publicações que considera fake news. Na pregação diária de uma sociedade acostumada à subserviência, aos modismos e ao politicamente correto, pode dar a impressão de que se trata de uma atitude benevolente em busca da “verdade”. Mas não é.
Poderíamos tergiversar buscando até mesmo o significado de “verdade”, que é tão complexo quanto a mente humana. Porém, pode-se resumir o núcleo da discussão sobre o tema, dizendo que não existe uma verdade absoluta; existe o fato concreto e as verdades das pessoas que o vêem, dependendo da ótica em que se encontram. Esta ótica também é conhecida como ponto de vista e, nela, há muitas variáveis possíveis. Isto não muda o fato concreto, mas muda como ele será contado pelo agente que o viu. Se adicionarmos a isto a possibilidade de interpretações possíveis, onde vivências e crenças pessoais e até a capacidade intelectual exercem forte pressão, chegamos à conclusão que “verdade” é algo muito relativo.
Voltemos à nova cartada do Facebook: o novo “serviço” de detecção de fake news da empresa coloca-a a serviço de quem? Da liberdade de expressão e da democracia, é que não é. Mais parece que chegamos ao contexto livro 1984, de George Orwell, do controle social através da tecnologia. Podemos até utilizar um outro termo, bem mais familiarizado aos brasileiros: censura. A partir do momento que a empresa Facebook decide o que podemos ou não publicar, o que podemos ou não “falar”, ela está censurando o direito à livre expressão de cada um. E isto remete a mais uma questão: quem ou que tipo de postagem será censurada a partir de agora?
Espere aí, não vamos relativizar. Censura é censura. É o ato de não permitir a livre manifestação de opinião (ainda que o termo “opinião” seja, também bem mais complexo do que sua utilização nesta frase), não permitir que a pessoa se manifeste, acredite ou faça circular determinada informação. Ainda assim, o exercício da relativização é interessante: se alguém publicar que a maré alta acontece por causa do vento, apenas, terá sua postagem cassada e impelida ao limbo da censura? Porque sabemos que a lua também interfere nas marés e a informação dos ventos não é precisa. Segundo a censura do Facebook, “as informações são factualmente imprecisas” – e a empresa Facebook consegur ser tão covarde em sua decisão, que terceiriza a “verificação” do fato.
Se uma postagem dessas, sobre as marés, não é censurada pela “imprecisão de informações”, assim como não o são postagens sobre vários assuntos, chegamos à conclusão de que o que o conglomerado censor (Facebook e verificadores terceirizados) está praticando é uma censura seletiva. E isto parece muito, mas muito estranho. Quais as reais intenções deste controle social? Quais os verdadeiros objetivos deste controle da informação? Essas são respostas que precisaremos buscar com atenção ao que está acontecendo.
Sou vacinado contra teoria das conspirações, às quais refuto de pronto sempre que uma chega até mim pelas próprias redes sociais. No entanto, uma coisa é certa: a sociedade brasileira está vivendo um momento ímpar de censura e tentativa do controle social através da informação. Este é um fato. Travestido de “combate às fake news”, esta nova ordem do politicamente correto está levando os brasileiros a acreditarem que esta é uma cruzada moralista e ética – e em nome desta cruzada tudo é válido e possível, inclusive retirar das pessoas direitos consagrados na Constituição.
A liberdade de se expressar é um direito fundamental. Para conter os exageros individuais, existem as leis e a Justiça. Por outro lado, a partir do momento em que se mata a liberdade de expressão, assassina-se a própria liberdade de cada um. Não impressiona que isto aconteça sob as bênçãos da aristocracia, daquela elite dominante que necessita manter o status quo; mas é triste ver que ocorra diante dos olhos fechados das pessoas comuns, muitas delas com capacidade intelectual para enxergar o perigoso momento em que vivemos.
