Até “ontem” não existia internet e a transmissão de um fato para conhecimento público era privilégio da imprensa. Os jornalistas e radialistas eram as pessoas que discorriam os acontecimentos para leitores, ouvintes e telespectadores ávidos pelas informações. Nas salas de aula de jornalismo, este exemplo era valorizado ao dizer que o jornalista é aquele profissional que recebe uma procuração do público para ir atrás da informação e repassá-la como notícia com garantia de veracidade do fato (e nem vamos entrar, aqui, na seara do bom ou do mau profissional, ou mesmo do quanto as crenças e vivências de um jornalista, como ser humano que é, podem influenciar na transmissão de uma informação).
O profissional do jornalismo era, só, o arauto da verdade. Ele sabia do fato e o transcrevia ao público. E ainda que mais pessoas tivessem visto o mesmo fato sob uma ótica diferente, elas não tinham o canal de comunicação que faria a sua verdade chegar ao grande público. Assim, o maior treinamento que um jornalista poderia ter era ser o mais imparcial possível ao narrar o fato, ao repassar a informação, ao dar a notícia. Isto fez da profissão uma das mais respeitadas pelo próprio público, que dependia do profissional do jornalismo para saber dos acontecimentos. Ao mesmo tempo, criou uma redoma de que só o jornalismo tem credibilidade para repassar uma informação verdadeira. Porém, com os novos tempos tecnológicos, o jornalismo acabou sendo atropelado pela velocidade da informação.
Até “ontem”, como não existia a tecnologia da internet, também não existiam as redes sociais. E desta forma, jornais, emissoras de rádio e de televisão traziam os fatos em primeira mão – e como versão única. Isto foi por terra a partir do “atropelamento”. A partir das redes sociais, cada vez mais velozes e interativas, todo mundo informa tudo de forma instantânea. É óbvio que “pessoas normais” (não jornalistas) divulgando informações em suas redes sociais não tem a obrigação de seguirem os ditames e critérios jornalísticos, mas não há como negar que, em certos casos, o fato tornado público por essas pessoas não só é verdadeiro como chega a muita gente (viraliza) antes mesmo da cobertura midiática.
Se as “pessoas normais”, ao divulgarem um fato, não têm o mesmo princípio ético de credibilidade exigido de um profissional do jornalismo (ainda que nem todos o tenham, pois não há profissão que não tenha alguns maus profissionais), é fato que muitas divulgam fatos verdadeiros, ou seja, notícias. É o exemplo clássico de um acidente ou mesmo um incêndio ocorrido em determinado lugar. Hoje se sabe do fato (ainda que de maneira primária e sem informações aprofundadas) e se recebe as imagens instantaneamente, antes mesmo de a própria imprensa tomar conhecimento do ocorrido. Coisas da tecnologia, são os novos tempos. A imprensa passa, a partir daí, a ter o papel de trazer as informações de maneira mais elaborada, mais elucidativa, mais informativa.
O jornalismo tem a obrigação ética de trazer a informação correta – mas ainda assim vemos, em alguns recantos, profissionais com o “poder do microfone” utilizando esta força para outros interesses ou mesmo uma mídia engajada em interesses outros que não o repasse da notícia, simplesmente. No entanto, sugerir que notícias veiculadas pelas redes sociais (usadas também pela imprensa e seus profissionais, claro) por “pessoas normais” não tem valor ou são fake news, é forçar a barra. Precisamos partir do princípio que assim como em toda e qualquer profissão temos bons e maus profissionais, no mundo real cotidiano temos pessoas com boas intenções e outras não; temos pessoas com ética e outras não; temos pessoas com interesse em repassar um fato e outras com interesses escusos. C’est la vie!
(continua na próxima coluna com a origem das fake news e o impacto da perda do monopólio da informação pelo jornalismo)
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