Não queria mais falar de Corona vírus, de Covid-19, do quanto esta doença está mexendo com o nosso dia a dia e com a saúde e economia do país. Porém, hoje tudo está relacionado a isso. O exagero de lives para informar sobre a doença, quando, depois de tanta informação já repassada, os números de casos e óbitos em uma imagem no fim do dia já seria suficiente. O mesmo exagero pode ser verificado na própria mídia. A vida continua apesar do vírus. Não que os noticiários não devam informar, mas só falar disso, além de cansar o público, dá a impressão que nada mais acontece no estado e no país. Das redes sociais, nem vou comentar. Cansamos de tantos “analistas”, “especialistas”, “julgadores”, bi-polarizando a questão como se donos da verdade fossem.
É preciso estar aberto às opiniões (fundamentadas e bem argumentadas, claro) que trazem horizontes e não fecham convicções. A comunicação é a mola mestra da sociedade, porém uma pseudo-comunicação que fecha questão em torno de uma ideia única, massifica uma posição unilateral e fixa posição em um “samba de uma nota só”, é extremamente prejudicial para as pessoas e, consequentemente, para a sociedade. Quando, há décadas, solidifiquei minha linha acadêmica de pesquisa sobre a indução midiática para a formação de uma “opinião pública”, tanto na graduação quanto na pós graduação, não imaginei que tal situação se mostraria tão aparente e escancarada quanto hoje em dia.
O fato é que a vida continua e continuará para a imensa esmagadora maioria das pessoas após esta pandemia. A taxa de mortalidade é ínfima se comparada ao número de habitantes. Em 16 de abril, eram 1.761 mortes no Brasil para mais de 220 milhões de habitantes, o que representa 0,0008% do total. No mundo, na mesma data eram contabilizadas 133.666 óbitos para uma população de 7,7 bilhões de pessoas, ou seja 0,0018%. Ou seja, passaremos por este vírus com algumas baixas diretamente causadas por ele, mas com muitos problemas indiretos para todos. Ninguém rebate que será um tempo de dificuldades econômicas enormes, de não-avanços em diversas áreas devido aos investimentos emergenciais bilionários destinados ao combate do vírus, e de um atraso de pelo menos dois anos na retomada da economia nacional.
Por outro lado, quem trabalha no segmento da publicidade e marketing sabe que uma crise também gera oportunidades. Prova disto é que o comércio on line está apostando fichas na comunicação para o público do #fiqueemcasa. Aliás, no – agora mais lento – mundo da comunicação profissional da publicidade, as peças e frases colam na Covid, direta ou indiretamente, para potencializar vendas. É preciso fazer girar a economia, do jeito que dá. É preciso, em um momento tão difícil para todos, mostrar que a vida não acabou, o mundo não parou e que, apesar de mais parados, estamos vivos. Por incrível que pareça, vislumbrar um mundo em que as coisas ainda acontecem, agora, perpassam a sensação de vida e liberdade, duas das muitas que nos foram tolhidas graças à Covid. Restaurantes se transformaram em “delivery”, pessoas passaram a fabricar máscaras em casa, surgiram serviços onde eles não existiam. Todo mundo querendo sobreviver economicamente de um lado, e querendo se sentir vivo do outro.
Este vírus está deixando várias lições para todos. Uma delas, é que a comunicação pode ser perniciosa ou redentora. Outra é que os brasileiros se reinventam, ainda que o sofrimento econômico ainda esteja por vir.
